Lacta: o chocolate de casa que teve cinco donos em um século
A Lacta é uma marca de chocolates fundada em São Paulo em 21 de janeiro de 1912 por um grupo de investidores liderado pelo cônsul suíço Achilles Isella. Desde 1996 pertence ao grupo americano hoje chamado Mondelēz International. Antes disso, passou pelas mãos de importadores paulistas, do grupo de Assis Chateaubriand e, por mais de meio século, da família do ex-governador Adhemar de Barros.
Na segunda quinzena de abril de 1996, a Lacta tinha mais de 30% do mercado brasileiro de chocolate, faturava acima de 400 milhões de dólares por ano e fabricava alguns dos doces mais conhecidos do país: Sonho de Valsa, Bis, Diamante Negro, Laka, Ouro Branco. Mesmo assim, a empresa estava sem dinheiro para pagar o que devia aos bancos. O homem que a comandava, Adhemar de Barros Filho, tinha se afastado do dia a dia no começo daquele ano e, semanas depois, acusou em público os próprios filhos de conspirar contra ele e contra a companhia. Em 27 de abril, a família assinou um acordo preliminar para vender o controle à Philip Morris, a gigante americana do cigarro que já era dona da Kraft e que, por um caminho tortuoso, já tinha 40% da Lacta.
Quem procura hoje pelo antigo dono da Lacta costuma esperar um nome só. A resposta tem pelo menos cinco. A marca que o brasileiro trata como o chocolate de casa nasceu com nome francês, numa fábrica que se apresentava como suíça, foi salva por um dono de jornais, cresceu nas mãos de um político e pertence há três décadas a uma multinacional americana. Os chocolates, curiosamente, são quase os mesmos de oitenta anos atrás.
Em resumo
A Lacta começou em 1912 como Société Anonyme de Chocolats Suisses, uma fábrica no bairro da Vila Mariana criada por investidores estrangeiros para produzir no Brasil chocolate com padrão europeu. O nome Lacta pertencia à francesa Poulain, cujos tabletes eram importados para São Paulo pela casa Zanotta, Lorenzi & Cia. Os importadores assumiram a fábrica e, em 1917, registraram a marca no país. Um incêndio em 1925, a crise de 1929 e uma concordata em 1930 levaram a empresa à falência em 1937. No ano seguinte, o grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, refundou a companhia, e em 1941 o controle passou ao grupo de Adhemar de Barros. Entre 1938 e 1962 nasceram os produtos que sustentam a marca até hoje: Diamante Negro, Sonho de Valsa, Bis, Laka e Ouro Branco. Em 1984, a família vendeu 40% da empresa a um grupo suíço que, em 1990, foi comprado pela Philip Morris. Endividada e dividida por brigas familiares, a família vendeu o controle em 1996. A dona da Kraft fechou as fábricas paulistas, levou a produção para Curitiba e, em 2012, transferiu a Lacta para a Mondelēz, criada a partir da divisão de doces e salgadinhos da Kraft. Nos últimos anos, a marca enfrentou a alta histórica do cacau mudando o tamanho das barras e espalhando seus nomes por biscoitos, sorvetes e ovos de Páscoa.
Um chocolate suíço feito na Vila Mariana
Em 1912, São Paulo crescia depressa com o dinheiro do café e com a chegada de imigrantes de toda a Europa. O chocolate de qualidade, porém, ainda vinha de navio. Quem podia pagar comprava tabletes importados da Suíça, da França ou da Alemanha em casas especializadas do centro da cidade. Havia uma contradição evidente nisso: o Brasil estava entre os maiores produtores de cacau do mundo, com as lavouras do sul da Bahia em plena expansão, e mandava o fruto para fora para comprá-lo de volta em forma de barra.
Foi essa contradição que reuniu, em torno do cônsul suíço Achilles Isella, um grupo de investidores com sobrenomes estrangeiros: industriais, um comerciante, um professor, um engenheiro e um arquiteto. Em 21 de janeiro de 1912, eles fundaram a Société Anonyme de Chocolats Suisses, compraram máquinas na Suíça e na Alemanha e instalaram a produção num galpão da rua José Antônio Coelho, na Vila Mariana. Para vender, abriram uma loja na rua Domingos de Moraes com um nome que dizia tudo sobre a ambição do negócio: A Suíça.
O nome que ficaria para a história, no entanto, era de outra empresa. Desde 1906, os comerciantes Carlos Zanotta e Eduardo De Lorenzi importavam da França os tabletes da Poulain, uma das chocolateiras mais conhecidas daquele país, vendidos com a marca Lacta, um nome que remete ao leite. Com a Primeira Guerra Mundial, trazer chocolate da Europa ficou caro e incerto. A solução foi produzir aqui. Por volta de 1916, a Zanotta, Lorenzi & Cia. assumiu a fábrica da Vila Mariana e, em 1917, obteve o registro da marca Lacta no Brasil. O Chocolate ao Leite Lacta, de embalagem roxa, passou a sair de uma fábrica paulista.
Fogo, crise e falência
Em 6 de janeiro de 1925, um incêndio destruiu a fábrica da rua José Antônio Coelho. A Lacta passou cerca de um ano fora das prateleiras e nunca recuperou por inteiro o que perdeu no incêndio.

Quatro anos depois veio a quebra da Bolsa de Nova York. O preço do café despencou, as fazendas paulistas cortaram gastos, e chocolate, para a maior parte das famílias, era gasto supérfluo. Em abril de 1930, a empresa pediu concordata. Saiu dela em 1933 vendendo apenas dois produtos, o Chocolate Lacta e, por incrível que pareça, um refrigerante chamado Guaraná Espumante. Para atrair os compradores mais jovens, os tabletes passaram a trazer figurinhas de um álbum colecionável, a Collecção Lacta de Cultura Infantil, que décadas depois seria disputada entre colecionadores.
O fôlego durou pouco. Em 1937, a empresa abriu falência.
O jornalista e o chocolate
Quem apareceu para recolher os pedaços foi Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, o maior grupo de jornais e rádios do país. Em 8 de dezembro de 1938, o grupo registrou na Junta Comercial de São Paulo uma empresa nova, a Indústria Lacta S.A.
Aquele ano trouxe um presente para o departamento de propaganda. Na Copa do Mundo da França, o atacante Leônidas da Silva foi o artilheiro do torneio e encantou a imprensa europeia com sua habilidade, a ponto de ganhar dos jornalistas franceses o apelido de Diamante Negro. O Brasil terminou em terceiro lugar, mas voltou para casa com um ídolo nacional. A Lacta pagou ao jogador pelo uso do apelido e batizou com ele um chocolate. Leônidas participou de anúncios no rádio e nos jornais, e a embalagem escura com um diamante estilizado levou para a marca um público que até então comprava pouco chocolate: os homens. É um dos primeiros casos de um atleta brasileiro emprestando o nome a um produto de massa, e o chocolate sobreviveu ao jogador, que morreu em 2004, aos 90 anos.
Na mesma época surgiu o Sonho de Valsa, um bombom de wafer recheado com castanha de caju e coberto de chocolate, embrulhado em papel metálico vermelho. No começo era vendido a quilo, em bombonières finas, e pensado para as mulheres.
A Lacta de Adhemar de Barros
Em 1941, o controle da empresa passou ao grupo de Adhemar de Barros, médico, empresário e político que acabava de deixar o cargo de interventor federal em São Paulo, nomeado por Getúlio Vargas. A companhia ganhou o nome de Indústria de Chocolates Lacta e ficaria com a família pelos 55 anos seguintes. Nesse período, Adhemar seria eleito governador duas vezes, prefeito da capital uma vez e candidato à Presidência da República, enquanto a fábrica de chocolates seguia como um dos negócios mais estáveis do grupo.

O primeiro lançamento da nova gestão, em 1942, foi um wafer retangular coberto de chocolate ao leite, vendido no começo em pacotes de três unidades: o Bis. Nos anos 1950 ganhou a embalagem pela qual o país o reconhece, uma bandeja de papelão com vinte unidades embaladas uma a uma. Também em 1942 o Sonho de Valsa mudou de público. Ficou maior, passou a ser vendido por unidade em bares e armazéns e ganhou no rótulo o casal dançando em traje de gala, com a partitura de uma valsa nas laterais. O bombom de bombonière passou a ser doce de balcão.
Em 1940, a Lacta já tinha começado a produzir ovos de Páscoa de chocolate, embalados em celofane e numerados conforme o tamanho, um sistema que o varejo usa até hoje. Com o tempo, a marca também espalhou pelos supermercados as parreiras, armações de madeira sobre as gôndolas de onde os ovos ficam pendurados. Poucas imagens são tão associadas à Páscoa no Brasil quanto um corredor coberto de ovos embrulhados em papel brilhante, e boa parte dessa cena foi desenhada pela Lacta.

A demanda cresceu tanto que, em 1957, a empresa inaugurou uma fábrica nova e muito maior no Brooklin, na zona sul de São Paulo, na rua Barão do Triunfo. De lá saíram, em 1962, três produtos de uma vez. O Laka, primeiro chocolate branco vendido no Brasil. O Ouro Branco, bombom de wafer com flocos de arroz coberto de chocolate branco. E o Confeti, pastilhas de chocolate coloridas cujo nome lembra os papeizinhos jogados no carnaval. Com eles, o núcleo do portfólio da Lacta estava completo. Seis décadas depois, ele continua praticamente o mesmo.
Uma indústria com pouca gente comendo chocolate
Nos anos 1970, os fabricantes perceberam que o problema da categoria era mais amplo do que a disputa entre eles. O brasileiro comia pouco chocolate, muito menos do que europeus e americanos. Em 1971, Lacta, Garoto e Nestlé se juntaram para criar um conselho dedicado a entender e aumentar esse consumo. As três disputavam o mesmo consumidor e, ao mesmo tempo, precisavam que ele existisse em maior número.

A Lacta respondeu com um fluxo constante de lançamentos. Em 1972 veio a caixa de bombons sortidos, chamada Carrossel no início, vermelha e com meio quilo, que mais tarde ficaria azul e seria rebatizada várias vezes. Em 1983 chegou o Krot, chocolate ao leite com amendoim. Na segunda metade da década vieram os tabletes grandes, de 200 gramas, e, em 1989, uma ideia simples que mudou a Páscoa: transformar em ovo os chocolates que o consumidor já conhecia do resto do ano, começando por Diamante Negro e Laka.
O sócio que veio da Suíça
Dentro da empresa, o cenário era menos doce. Depois da morte de Adhemar de Barros, em 1969, os negócios da família ficaram sob o comando do filho, Adhemar de Barros Filho, deputado federal e empresário, que concentrava suas participações numa holding chamada Endipa. Em 1984, a Endipa vendeu 40% da Lacta à Interfood, empresa suíça que pouco depois se tornaria parte da Jacobs Suchard, um dos maiores grupos de chocolate e café da Europa.
A sociedade azedou em quatro anos. Em 1988, Adhemar de Barros Filho rompeu com o sócio suíço, acusando-o de tentar tomar o controle da companhia, e a disputa foi parar nos tribunais. Em 1990, uma notícia vinda de fora mudou a natureza do problema: a Philip Morris comprou a Jacobs Suchard. Dois anos antes, a mesma Philip Morris tinha comprado a Kraft. A família Adhemar de Barros passou a ter como sócia minoritária, com direito de preferência sobre as ações, a maior fabricante de cigarros do mundo e uma das maiores empresas de alimentos do planeta.
Uma venda em meio à briga de família
Os anos 1990 cobraram a conta. A abertura da economia trouxe chocolates importados para as prateleiras, o Plano Real acabou com a inflação que maquiava os balanços e a holding da família acumulava dívidas crescentes em dólar. A Lacta tinha uma dívida de curto prazo que os bancos não queriam mais rolar. Pedidos de novos empréstimos foram recusados. No começo de 1996, Adhemar de Barros Filho deixou a gestão do dia a dia e, em fevereiro, acusou publicamente os três filhos de conspirar contra a família e a empresa.

Sem crédito e sem acordo em casa, restava vender. A Philip Morris, que tinha o direito de preferência, era a compradora natural. O acordo preliminar foi assinado em 27 de abril de 1996, por um valor que nunca foi divulgado. A Lacta passou a ser uma divisão da Kraft Suchard no Brasil e, mais tarde, deu nome à própria subsidiária, a Kraft Lacta Suchard Brasil. A marca que imigrantes tinham criado em São Paulo passava a ser comandada do exterior. Seis anos depois, a família Meyerfreund venderia a Garoto à Nestlé depois de uma briga familiar parecida, e o chocolate nacional ficaria, quase todo, em mãos estrangeiras.
De São Paulo para Curitiba
Os novos donos trouxeram marcas de fora, como a Milka, lançada no Brasil em 1996, e uma lógica de custos que a família não tinha. No começo dos anos 2000, a Kraft decidiu concentrar toda a sua produção de chocolate numa só cidade. O lugar escolhido foi Curitiba, onde a Philip Morris tinha uma antiga fábrica de cigarros. O prédio foi reformado para fazer alimentos, recebeu investimento de cerca de 100 milhões de dólares e começou a receber as linhas paulistas uma a uma: o Bis em fevereiro de 2002, o Sonho de Valsa em abril, Diamante Negro, Laka e Milka no segundo semestre.
A fábrica do Brooklin, que em 2001 empregava cerca de 2.500 pessoas, teve o fechamento adiado algumas vezes e encerrou as atividades no fim de 2002. Três unidades paulistas foram fechadas e outra foi vendida. No terreno da rua Barão do Triunfo, onde por quase meio século se fizeram Bis e Sonho de Valsa, hoje há um condomínio residencial. A Lacta continuou paulista no imaginário e passou a ser paranaense na produção. Mais tarde, a empresa abriu uma segunda fábrica em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, mais perto do consumidor do Nordeste.

Em 2003, o Krot passou a se chamar Shot, o mesmo nome usado nos outros países da América Latina onde o chocolate era vendido, e o logotipo da Lacta ganhou uma letra mais fluida, com um traço embaixo que sugeria cremosidade. Eram sinais de uma marca local sendo ajustada para caber num portfólio internacional.
O centenário e a troca de sobrenome
A Lacta completou cem anos em 2012 com um ovo de Páscoa comemorativo de meio quilo, três ovos encaixados um dentro do outro que reuniam Laka, Diamante Negro, Sonho de Valsa, Bis e o chocolate ao leite. Ganhou também um livro sobre sua história e uma exposição no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.
No mesmo ano, a dona trocou de nome. Em 1º de outubro de 2012, a Kraft se dividiu em duas empresas. A parte de mercearia, com queijos e molhos, ficou com o nome Kraft. A parte de doces, biscoitos e salgadinhos, onde estavam Lacta, Oreo, Trakinas, Club Social e Trident, ganhou o nome de Mondelēz International. A Lacta não mudou de mãos, mas passou a pertencer a uma empresa com um nome que quase nenhum consumidor conhecia.
Nos anos seguintes, a estratégia foi multiplicar o uso dos nomes que o consumidor já conhecia. Laka e Diamante Negro dividiram a mesma barra em 2013. Laka ganhou pedaços de Oreo em 2014, o Bis ganhou uma versão Oreo em 2017, e no mesmo ano os sabores mais vendidos chegaram aos cookies. Em 2018, Laka, Diamante Negro e Sonho de Valsa ganharam versões de sorvete, numa parceria com a fabricante Froneri. No fim de 2019 veio a linha Intense, com 40% e 60% de cacau, para disputar o consumidor que passava a preferir chocolates mais amargos.
Em 2021, a marca ganhou uma nova identidade visual. O logotipo recuperou o L alongado das primeiras embalagens, adotou um azul mais vivo, e as embalagens passaram a exibir a assinatura Desde 1912, criando laços. Depois de duas décadas tentando parecer moderna, a Lacta resolveu lembrar ao consumidor que era antiga.
O cacau mais caro da história
Em outubro de 2022, a Mondelēz testou com a Lacta uma mudança que nenhum consumidor deixou de notar: os tamanhos das barras. A linha passou a ter tabletes de 34 gramas para quem queria só um pedaço, de 80 gramas para dividir e de 165 gramas para a família. Na prática, as barras do dia a dia ficaram menores. A empresa explicou a mudança como resposta a diferentes momentos de consumo. Os consumidores reclamaram, mas as vendas da Lacta cresceram 17% no primeiro trimestre de 2023, e o mesmo modelo foi levado ao Bis.
O pior ainda estava por vir. Uma sequência de safras ruins em Gana e na Costa do Marfim, que respondem pela maior parte do cacau do mundo, fez o preço da tonelada sair de cerca de 2.500 dólares em 2022 para picos acima de 12 mil dólares no fim de 2024. Nenhum fabricante escapou. No Brasil, o preço dos chocolates em barra e dos bombons subiu quase 25% nos doze meses encerrados em janeiro de 2026. A Mondelēz respondeu com uma escada de preços que vai de um wafer de R$ 1,99 a barras grandes de Milka, e com a aposta de que o brasileiro prefere comprar menos da marca de que gosta a trocar por uma mais barata.
No meio da crise, a liderança também mudou. Em fevereiro de 2024, o presidente da Mondelēz no Brasil, Liel Miranda, deixou a empresa para comandar a Alpargatas, dona da Havaianas. Assumiu o argentino Maximiliano Cardoso, que já tinha dirigido o negócio de chocolates no país entre 2015 e 2017.
O capítulo em aberto
Os números recentes mostram uma marca que atravessou o choque do cacau em boa forma. A Mondelēz praticamente dobrou de tamanho no Brasil em quatro anos, o país está entre as cinco maiores operações da empresa no mundo, e o chocolate responde por metade do negócio brasileiro. Na Páscoa de 2025, as vendas cresceram 15%. A empresa anunciou investimento de R$ 1 bilhão em capacidade de produção, concentrado em Curitiba, chegou a 1 milhão de pontos de venda e, para a Páscoa de 2026, lançou o ovo de Bis sabor limão e o meio ovo de Laka com caramelo, ao lado dos clássicos de sempre.
Duas mudanças devem testar a marca daqui para a frente. A primeira vem da lei. Em maio de 2026 foi sancionada a lei que define teores mínimos de cacau para tudo o que for vendido como chocolate no Brasil e obriga o fabricante a informar o percentual em destaque na frente da embalagem. As regras passam a valer em maio de 2027. Depois de anos em que as barras encolheram e as receitas foram ajustadas para conviver com o cacau caro, o consumidor vai poder comparar, com um número, o que está comprando. A segunda é a concorrência. O mercado de chocolate brasileiro movimentou R$ 26 bilhões em 2025, e uma parte crescente desse dinheiro vai para redes de lojas próprias e marcas que vendem chocolate como presente, um território em que a Lacta, nascida e criada no supermercado, ainda tem menos presença.
O que a Lacta ensina
A primeira lição está na lista de donos. Em pouco mais de um século, a Lacta passou por importadores, por um dono de jornais, por uma família de políticos, por uma fabricante de cigarros e por uma multinacional de salgadinhos. Nenhum deles mexeu no que o consumidor comprava. O Diamante Negro de hoje é parente direto do de 1938, o Bis continua em bandeja, o Sonho de Valsa segue embrulhado em papel vermelho. A marca sobreviveu a cada troca de comando porque o que as pessoas reconheciam nela estava no produto, e o produto ficou onde estava.
A segunda lição é sobre o atalho da memória. Boa parte das grandes decisões da Lacta nos últimos quarenta anos consistiu em pegar um nome que o consumidor já amava e levá-lo para outro lugar: do tablete para o ovo de Páscoa em 1989, do chocolate para o biscoito e o sorvete depois de 2017, do Bis tradicional para o Bis de limão em 2026. É uma estratégia barata e eficiente, porque não exige convencer ninguém de nada. O risco está no outro lado da mesma moeda. Uma marca que vive de clássicos lançados até 1962 precisa, em algum momento, criar o clássico seguinte.
A terceira lição é sobre confiança. Quando o cacau ficou caro, a resposta da Lacta foi encolher as barras e reorganizar os tamanhos, e os consumidores perceberam. As vendas resistiram porque a relação com a marca era antiga e forte o bastante para absorver o incômodo. Essa reserva de afeto, acumulada em gerações de ovos de Páscoa e caixas azuis, é o patrimônio mais valioso da Lacta e o único que nenhum dos seus donos conseguiu comprar. Ele pode ser gasto. A lei que vai colocar o percentual de cacau na frente da embalagem dirá quanto dele ainda resta.
Perguntas frequentes
Quem é o dono da Lacta hoje?
A Lacta pertence à Mondelēz International, multinacional americana de doces e salgadinhos dona também de Oreo, Bis, Trakinas, Club Social, Milka e Trident. A marca está no grupo desde 1996, quando foi comprada pela Philip Morris e integrada à Kraft. Em 2012, a divisão de doces e salgadinhos da Kraft passou a se chamar Mondelēz.
Quem foi o antigo dono da Lacta?
Por 55 anos, de 1941 a 1996, a Lacta pertenceu à família do político paulista Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo, e depois ao filho dele, Adhemar de Barros Filho. Antes, a empresa foi controlada pelo grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, que a refundou em 1938, e pelos importadores Zanotta, Lorenzi & Cia., que registraram a marca no Brasil em 1917.
Quem fundou a Lacta e em que ano?
A empresa foi fundada em 21 de janeiro de 1912, na Vila Mariana, em São Paulo, por um grupo de investidores liderado pelo cônsul suíço Achilles Isella, com o nome de Société Anonyme de Chocolats Suisses.
A Lacta é uma marca brasileira?
A marca foi criada e é fabricada no Brasil, mas não tem dono brasileiro desde 1996. O nome Lacta vem de uma linha de chocolates da francesa Poulain, importada para São Paulo antes de a marca ser registrada aqui, em 1917.
Por que a família Adhemar de Barros vendeu a Lacta?
Por causa de dívidas e de brigas familiares. Em meados dos anos 1990, a empresa e a holding da família tinham dívidas em dólar que os bancos não aceitavam mais renegociar, e Adhemar de Barros Filho estava em conflito aberto com os próprios filhos. A Philip Morris, que já tinha 40% da companhia e direito de preferência sobre as ações, comprou o controle em 1996 por valor não divulgado.
Por que o chocolate se chama Diamante Negro?
É uma homenagem ao atacante Leônidas da Silva, artilheiro da Copa do Mundo de 1938, na França, que recebeu da imprensa francesa o apelido de Diamante Negro. A Lacta pagou ao jogador pelo uso do apelido e lançou o chocolate no mesmo ano.
Onde os chocolates Lacta são fabricados?
Principalmente em Curitiba, no Paraná, que concentra a produção de chocolates da Mondelēz no Brasil desde 2002, e em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. A fábrica histórica do Brooklin, em São Paulo, foi fechada no fim de 2002.
Ficha da marca
- Marca: Lacta
- Fundação: 21 de janeiro de 1912, Vila Mariana, São Paulo (SP)
- Fundador: grupo de investidores liderado pelo cônsul suíço Achilles Isella
- Origem do nome: linha de chocolates da francesa Poulain, registrada no Brasil em 1917
- Setor: chocolates, bombons, confeitos e ovos de Páscoa, com extensões em biscoitos e sorvetes
- Marcas clássicas: Diamante Negro (1938), Sonho de Valsa, Bis (1942), Laka (1962), Ouro Branco (1962), Confeti (1962), Shot (1983, como Krot)
- Donos ao longo do tempo: Zanotta, Lorenzi & Cia. (1916 a 1937), Diários Associados (1938 a 1941), família Adhemar de Barros (1941 a 1996), Philip Morris e Kraft (1996 a 2012), Mondelēz International (desde 2012)
- Fábricas: Curitiba (PR) e Vitória de Santo Antão (PE)
- Presidente da Mondelēz Brasil: Maximiliano Cardoso (desde fevereiro de 2024)
- Assinatura atual: Desde 1912, criando laços


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