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Havaianas: de chinelo de pobre ao tapete vermelho

Por · 10 de outubro de 2026

A Havaianas é a marca de sandálias de borracha mais conhecida do mundo e pertence à Alpargatas, empresa paulista fundada em 1907 e hoje controlada pela Itaúsa e pela família Moreira Salles. O chinelo foi lançado em 1962, inspirado numa sandália japonesa, e hoje vende mais de 200 milhões de pares por ano.

No fim de dezembro de 2025, um ex-deputado federal gravou um vídeo jogando um par de Havaianas no lixo. Dias antes, um senador mineiro tinha acusado a marca de fazer propaganda política num comercial de fim de ano em que a atriz Fernanda Torres brincava com a superstição do pé direito e sugeria começar 2026 com os dois pés. Em poucas horas, o chinelo mais democrático do país estava no centro de uma briga partidária. Um deputado ironizou que nem todo mundo, agora, iria usar. Um empresário postou uma foto calçando a concorrente. Um parlamentar eleito por Montes Claros, cidade onde fica uma das quatro fábricas da marca, aderiu ao coro. O assunto chegou às páginas do The New York Times, do The Guardian e do Le Monde.

A cena diz muito sobre o tamanho que a Havaianas alcançou. Só vira alvo de boicote político aquilo que todo mundo reconhece, e poucas marcas brasileiras são tão reconhecidas quanto um pedaço de borracha com duas tiras. Mas nem sempre foi assim. Durante boa parte da sua vida, a Havaianas foi chamada de chinelo de pobre, perdeu espaço para concorrentes mais modernas e ajudou a arrastar a empresa dona dela para uma crise que durou mais de uma década. Antes disso tudo, ela nem existia. A história começa com um escocês, uma sandália de corda e os cafezais de São Paulo.

Vídeo. Fonte: canal Curioso Mercado no YouTube.

A história

A Alpargatas nasceu em São Paulo em 1907, fundada pelo escocês Robert Fraser para fabricar alpargatas, sandálias de lona e solado de corda usadas por trabalhadores rurais. Abriu capital em 1913 e passou as décadas seguintes atravessando guerras, a gripe espanhola e a crise do café, sempre lançando um produto novo para sair da enrascada: lonas para caminhões, tecido para jeans, tênis populares, botas de borracha. Em 1962 lançou a Havaianas, uma adaptação em borracha da sandália japonesa zori. O sucesso foi imediato e as imitações também. Nos anos 1980, o chinelo ficou associado às classes mais baixas, perdeu prestígio e a empresa entrou em declínio. A virada começou nos anos 1990, quando surfistas passaram a usar a sandália com a sola virada para cima e a Alpargatas transformou o hábito na linha Havaianas Top, de cor única. Com celebridades, cores e preço mais alto, a marca subiu de patamar no Brasil e, a partir dos anos 2000, conquistou o exterior. Entre 2015 e 2017, a empresa trocou de dono duas vezes por causa da Operação Lava Jato, até chegar às mãos da Itaúsa e da família Moreira Salles. Uma tentativa de diversificação, com a compra de metade da americana Rothy's em 2021, terminou em prejuízo e troca de comando. Desde 2024, sob o CEO Liel Miranda, a Alpargatas voltou a concentrar tudo na Havaianas e, em 2025, teve o maior lucro da sua história.

O escocês das sandálias de corda

Robert Fraser chegou ao Brasil com uma fórmula que já tinha dado certo duas vezes. Na Argentina e no Uruguai, ele havia montado fábricas de alpargatas, um calçado simples, de origem milenar, com cabedal de lona e sola de corda trançada, barato o bastante para os trabalhadores do campo e resistente o bastante para aguentar a lida. São Paulo, no começo do século 20, era o lugar óbvio para repetir a aposta. O café sustentava a economia do país, as fazendas paulistas empregavam centenas de milhares de colonos, e quase todos precisavam de algo nos pés.

Em 3 de abril de 1907, em sociedade com investidores ingleses, Fraser fundou a Sociedade Anônima Fábrica Brasileira de Alpargatas e Calçados, com uma fábrica no bairro da Mooca. O produto principal, a Alpargata Roda, vinha em azul, marrom e vermelho e logo se espalhou pelas lavouras. A mesma fábrica produzia uma lona de algodão grossa e impermeável que os fazendeiros usavam para secar grãos de café no terreiro. Não demorou para que a lona fosse parar em cima dos vagões de trem, protegendo a carga da chuva. Daí nasceu a marca Locomotiva, que por décadas cobriu caminhões nas estradas brasileiras.

Kombi dos distribuidores autorizados das Sandálias Havaianas, com o slogan o andar mais confortável do mundo, nos anos 1960. Foto: divulgação
Kombi dos distribuidores autorizados das Sandálias Havaianas, com o slogan o andar mais confortável do mundo, nos anos 1960. Foto: divulgação

Em 1913, a empresa abriu capital na bolsa de São Paulo para financiar a expansão. Mais de um século depois, continua listada, o que faz dela uma das companhias mais antigas da bolsa brasileira. Fraser não acompanhou esse capítulo: deixou a sociedade em 1911 e escapou dos anos difíceis que viriam.

E eles vieram em sequência. A Primeira Guerra Mundial cortou o fornecimento de matéria-prima importada. Em 1918, a gripe espanhola chegou a deixar metade dos operários da fábrica doentes. Nos anos 1920, a superprodução de café derrubou os preços e, com eles, a renda dos colonos que compravam a Alpargata Roda. A empresa chegou a suspender a fabricação do seu produto mais conhecido. A saída, nos anos 1930, foi transferir o controle para a Alpargatas argentina, que trouxe dinheiro e gestão, retomou a produção e colocou a fábrica para fazer os primeiros calçados de couro. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, a Alpargatas forneceu mochilas, barracas e fardas às tropas paulistas.

A Segunda Guerra trouxe outra rodada de escassez, e a resposta foi a mesma de sempre: inventar alguma coisa. Os americanos estavam usando calças de brim azul, resistentes e baratas, e a Alpargatas resolveu fabricar o tecido aqui. O Brim Coringa, que não desbotava nem encolhia, deu origem às calças Rodeio e Far West, entre as primeiras calças jeans feitas no Brasil.

Nos anos 1950, a empresa entrou na moda jovem com o tênis Conga, em cores como amarelo-canário e rosa-choque, e com o Bamba. Lançou também uma versão da velha alpargata com solado de borracha, a Sete Vidas, mais flexível e durável, que acompanhou muitos dos operários que ergueram Brasília no fim da década. A borracha funcionou tão bem que virou o caminho da companhia. Em 1961 vieram as botas Sete Léguas, até hoje presentes na agricultura e na construção civil. No ano seguinte, viria o produto que mudaria tudo.

Uma sandália japonesa com nome de ilha americana

A inspiração estava nos pés dos imigrantes japoneses. A zori, sandália tradicional do Japão, tinha solado de palha de arroz trançada e tiras de tecido presas entre os dedos. A Alpargatas trocou a palha pela borracha, que já dominava, e manteve o desenho. Para não esquecer a origem, gravou na palmilha uma textura de pequenos grãos ovais, que imitam os grãos de arroz da palha original. O detalhe, que quase ninguém repara, está em todas as Havaianas até hoje e tem uma função prática: evita que o pé escorregue.

O nome foi escolhido para evocar o Havaí, que nos anos 1960 era o destino de férias dos sonhos das elites americanas e a imagem perfeita de verão sem fim. Havia uma ironia ali que só ficaria evidente mais tarde: o chinelo batizado em homenagem a um paraíso de turistas ricos seria, durante décadas, o calçado mais barato do Brasil.

As primeiras Havaianas, lançadas em 1962, tinham uma combinação só: solado branco por cima, azul por baixo e tiras azuis. O sucesso foi instantâneo. Kombis da marca percorriam o país vendendo os pares de cidade em cidade e, em pouco tempo, quase todo brasileiro tinha um. Com o sucesso vieram as cópias, e em menos de dois anos o mercado estava cheio de imitações de borracha ruim, que deformavam no sol, soltavam as tiras e cheiravam mal.

Carta-patente de modelo industrial concedida à São Paulo Alpargatas em 19 de julho de 1966 para o novo modelo de palmilha com forquilha, a partir de pedido depositado em 13 de agosto de 1964. Fonte: Departamento Nacional da Propriedade Industrial
Carta-patente de modelo industrial concedida à São Paulo Alpargatas em 19 de julho de 1966 para o novo modelo de palmilha com forquilha, a partir de pedido depositado em 13 de agosto de 1964. Fonte: Departamento Nacional da Propriedade Industrial

A Alpargatas respondeu com propaganda. O humorista Chico Anysio virou o primeiro garoto-propaganda da marca e repetiu na televisão, por anos, a frase que todo brasileiro de certa idade sabe de cor: as Havaianas não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro. Os comerciais alertavam contra as sandálias fajutas, e o slogan passou a ser Havaianas, as legítimas. Em 1966, a empresa obteve a patente do chinelo de dedo de borracha.

Anúncio de época com o humorista Chico Anysio pedindo as legítimas Havaianas, que não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro. Fonte: anúncio de época, divulgação
Anúncio de época com o humorista Chico Anysio pedindo as legítimas Havaianas, que não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro. Fonte: anúncio de época, divulgação

Três anos depois, um acidente de fábrica ensinou à marca uma lição que ela levaria décadas para aproveitar por inteiro. Em 1969, um erro na produção gerou um lote de sandálias com tiras verdes. Em vez de descartar, a Alpargatas pôs o lote à venda. Vendeu tudo. Logo vieram tiras amarelas, pretas e cor de ferrugem. A Havaianas tinha descoberto que cor vendia, mas ainda não sabia o quanto.

O chinelo de pobre

Os anos 1970 foram de expansão. A Alpargatas abriu fábricas em várias regiões do país, lançou em 1970 o Kichute, tênis-chuteira com travas de borracha que virou uniforme de pelada de toda uma geração, e entrou no mercado esportivo com a Topper e, depois, com a Rainha. A Havaianas seguia vendendo muito, em todo canto, pelo preço de um lanche.

Esse foi justamente o problema. Na década de 1980, o chinelo ficou colado à imagem de produto barato, vendido em armazém de bairro e usado por quem não tinha dinheiro para outra coisa. Ex-executivos da empresa contariam depois que a marca chegou a ser vista como coisa de pobre, algo que ninguém usava fora de casa se pudesse evitar. Ao mesmo tempo, a concorrência mudou de nível. Em 1986, a Grendene lançou a Rider, uma sandália com desenho esportivo, voltada ao público masculino, que oferecia exatamente o que faltava à Havaianas: estilo.

Anúncio da sandália Rider, da Grendene, concorrente da Havaianas a partir dos anos 1980. Fonte: anúncio de época, divulgação
Anúncio da sandália Rider, da Grendene, concorrente da Havaianas a partir dos anos 1980. Fonte: anúncio de época, divulgação

A empresa dona da marca também tinha mudado. Em 1982, depois de um processo gradual de nacionalização do capital, a São Paulo Alpargatas deixou de ter participação argentina e passou a ter como maior acionista o Grupo Camargo Corrêa. A companhia era grande, diversificada e lenta. Trocou de comando algumas vezes ao longo da década sem encontrar um rumo, enquanto as vendas caíam e os custos não.

Os surfistas que viraram a sola

A saída apareceu na praia, e quem a encontrou foram os próprios consumidores. No começo dos anos 1990, surfistas do Arpoador, no Rio de Janeiro, passaram a soltar as tiras das Havaianas, virar o solado ao contrário e usar a sandália com o lado colorido para cima. O chinelo de duas cores virava um chinelo de uma cor só, inteiro azul ou inteiro preto, e com isso parecia outro produto.

A Alpargatas viu o hábito e decidiu fabricá-lo. Em 1994 lançou a Havaianas Top, a primeira variação da marca em 32 anos: solado e tiras da mesma cor, em vários tons, vendida mais cara do que o modelo tradicional. Era a mesma borracha, o mesmo desenho, a mesma textura de arroz. O que mudou foi o lugar que o chinelo ocupava na cabeça das pessoas. A partir dali vieram as cores fortes, as estampas, as coleções assinadas e uma enxurrada de comerciais com atores e atletas famosos sob o mote de que todo mundo usa. A mensagem era clara: a sandália que antes se escondia em casa agora estava nos pés de quem aparecia na televisão.

A Copa do Mundo de 1998 trouxe outro empurrão, este por acaso. A empresa fabricou uma grande quantidade de sandálias com a bandeira do Brasil na tira. O Brasil perdeu a final para a França e o estoque encalhou. O responsável pela operação na Europa sugeriu mandar os pares para lá, onde o Brasil era sinônimo de sol, praia e alegria. Rebatizadas de Havaianas Brasil, venderam bem e abriram uma porta que a marca ainda não tinha pensado em atravessar.

A tesoura de 1997

O sucesso nas lojas ainda não aparecia no balanço. A Alpargatas carregava fábricas demais, gente demais, marcas licenciadas demais e uma estrutura de benefícios para executivos que pertencia a outra época. Em 1997, os controladores trouxeram Fernando Tigre para a presidência com a tarefa de arrumar a casa.

Tigre encontrou uma empresa obsoleta e cortou fundo. Fechou fábricas, reduziu o quadro de funcionários em alguns milhares de pessoas, desfez contratos de licenciamento de marcas estrangeiras e acabou com privilégios da alta direção. A partir de 1998, a companhia interrompeu o declínio que vinha desde os anos 1980 e voltou ao lucro. No fim da década, a Havaianas se aproximava dos 100 milhões de pares vendidos por ano.

Do Arpoador ao tapete vermelho

Em 2003, Márcio Utsch, que já trabalhava na área financeira da empresa havia anos, assumiu a presidência. Ficaria quinze anos no cargo e seria lembrado como o executivo que levou a Havaianas ao mundo.

Márcio Utsch, presidente da Alpargatas de 2003 a 2018, diante de uma parede de Havaianas. Foto: divulgação
Márcio Utsch, presidente da Alpargatas de 2003 a 2018, diante de uma parede de Havaianas. Foto: divulgação

A estratégia repetiu lá fora o que tinha funcionado aqui: colocar o chinelo nos pés certos. A partir de 2003, os indicados ao Oscar passaram a receber pares exclusivos de Havaianas nos kits de presentes da premiação. Atrizes e atores de Hollywood começaram a ser fotografados com elas, e a sandália de borracha brasileira entrou no guarda-roupa de quem dita moda. Em 2007, a marca abriu operação própria nos Estados Unidos e, em 2008, montou sua base europeia em Madri. Em mercados onde não tinha estrutura, vendia por meio de distribuidores locais.

No mesmo período, a Alpargatas se reorganizou por cima. Em 2008, o Grupo Camargo Corrêa comprou a fatia que o Bradesco tinha na empresa e passou a deter mais de 61% do capital votante. Vieram aquisições no Brasil e na Argentina, inclusive a compra de participação relevante na antiga matriz argentina, e a entrada no capital da grife carioca Osklen. Em 2010, a razão social deixou de lado o São Paulo e passou a ser apenas Alpargatas S.A., um nome mais adequado a quem queria ser global. Em 2016, a receita chegou a cerca de R$ 4 bilhões.

Três donos em dois anos

A Operação Lava Jato atingiu em cheio o Grupo Camargo Corrêa, uma das maiores empreiteiras do país, e a Alpargatas virou moeda para pagar a conta. Em 2015, o grupo vendeu o controle à J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, por R$ 2,67 bilhões.

Durou pouco. Em 2017, a delação premiada dos irmãos Batista obrigou a J&F a vender ativos às pressas. Em setembro daquele ano, o controle da Alpargatas passou para a Itaúsa, holding da família Setubal que controla o Itaú, e para a Cambuhy e a Brasil Warrant, veículos de investimento da família Moreira Salles, por cerca de R$ 3,5 bilhões. Em dois anos, a centenária fabricante de chinelos tinha passado das mãos de uma empreiteira para as de um frigorífico e, dali, para as de duas famílias de banqueiros.

Os novos donos fizeram uma faxina no portfólio. Venderam a Topper, a Rainha, as botas Sete Léguas, a Osklen e até a centenária lona Locomotiva, e encerraram as licenças de marcas estrangeiras como Mizuno e Timberland. A ideia era concentrar energia no que dava dinheiro de verdade, e o que dava dinheiro era a Havaianas. Em 2018, Márcio Utsch deixou a presidência.

A aposta na Califórnia

O sucessor, Roberto Funari, assumiu no começo de 2019 com uma visão mais ambiciosa. A Havaianas deveria deixar de ser só uma marca de chinelos e ocupar mais espaço na vida do consumidor: tênis, roupas, toalhas, lojas temporárias, vendas digitais, mais países ao mesmo tempo. Em 2020, a Alpargatas comprou uma empresa de tecnologia, a ioasys. Em dezembro de 2021, anunciou a compra de 49,9% da Rothy's, marca californiana de sapatos feitos com plástico reciclado de garrafas PET, por US$ 475 milhões, numa transação que avaliava a empresa americana em US$ 1 bilhão.

Roberto Funari, presidente da Alpargatas de 2019 a 2023, numa loja Havaianas. Foto: divulgação
Roberto Funari, presidente da Alpargatas de 2019 a 2023, numa loja Havaianas. Foto: divulgação

O mercado não gostou. A Rothy's era desconhecida no Brasil, vendia sapatos que custavam pelo menos cem dólares a mais do que um par de Havaianas, e a compra foi feita no pico das avaliações das empresas de consumo. Em 2021, a ação da Alpargatas chegou perto de R$ 60. No ano seguinte, os juros subiram no mundo todo, a companhia fez uma emissão de ações de cerca de R$ 2,5 bilhões para reduzir a dívida, os resultados vieram abaixo do esperado e o lucro de 2022 caiu 72%. A ação terminou o ano perto de R$ 13.

A expansão em tantas frentes cobrou seu preço também dentro de casa. Os estoques incharam e precisaram ser liquidados, os custos de logística subiram e a empresa perdeu atenção sobre os supermercados e atacarejos, que sempre foram o coração das vendas de Havaianas. Na Europa, atrasos no abastecimento comprometeram o verão de 2023. Naquele ano, a Alpargatas teve prejuízo, registrou uma baixa contábil de R$ 1,5 bilhão no valor da Rothy's, e Funari deixou o comando. O ex-presidente da Ambev Luiz Fernando Edmond assumiu interinamente.

A volta ao chinelo

Em fevereiro de 2024, a presidência passou para Liel Miranda, executivo que comandava a Mondelez no Brasil, dona da Lacta. Ele chegou com uma ideia simples: a Alpargatas é a Havaianas, e a Havaianas é, antes de tudo, um chinelo.

Liel Miranda, CEO da Alpargatas desde 2024. Foto: divulgação
Liel Miranda, CEO da Alpargatas desde 2024. Foto: divulgação

O que veio depois foi uma arrumação de base. A empresa limpou os estoques, enxugou o número de modelos, revisou fábricas e logística e passou a montar um portfólio diferente para cada canal: um par de cerca de R$ 20 para o atacarejo, onde a marca tem perto de três quartos das vendas de chinelos, e modelos de R$ 200 ou mais para as lojas de shopping e as coleções especiais. A rede de franquias no Brasil, com cerca de 600 lojas, ganhou unidades maiores e mais modernas. Miranda passou a visitar lojas todo mês e fábricas a cada trimestre.

As coleções especiais viraram vitrine. Em 2024, a parceria com a grife italiana Dolce & Gabbana trouxe quatro modelos da Havaianas Top com estampas da marca, tiras de veludo e acabamento metálico, e esgotou em 48 horas. Depois vieram uma colaboração com a francesa Isabel Marant e, em abril de 2026, uma coleção ligada ao lançamento do filme O Diabo Veste Prada 2, com o mote de tirar o salto e ir de Havaianas, estrelada pela modelo Isabeli Fontana e lançada ao mesmo tempo em Nova York, Londres, Milão, Paris e Rio de Janeiro.

Os números responderam. Em 2025, a Alpargatas faturou R$ 4,5 bilhões, 11% a mais do que no ano anterior, e teve lucro de R$ 568 milhões, o maior da sua história. A operação internacional, que vinha de dois anos no vermelho, voltou a dar lucro. Em dezembro daquele ano, o conselho decidiu não exercer a opção de comprar o restante da Rothy's e manteve os cerca de 49% que já tinha. No mesmo mês veio o boicote político, que fez barulho nas redes, mas não impediu que as vendas seguissem crescendo: no segundo trimestre de 2026, a empresa vendeu 53,3 milhões de pares, 9% a mais do que um ano antes, teve o maior resultado operacional da sua história para o período e um lucro de R$ 170 milhões, quase o dobro do registrado um ano antes. No mesmo período, a marca aumentou o investimento em marketing, com uma campanha para a Copa do Mundo estrelada pelo atacante Vini Jr.

O capítulo em aberto

A Havaianas de 2026 é uma marca mais enxuta, mais lucrativa e mais cara do que a de cinco anos atrás. Ainda depende muito do Brasil, que vende cerca de dez vezes mais pares do que todos os outros países juntos. Para crescer lá fora, a empresa trocou parte das operações próprias por parceiros: nos Estados Unidos, a venda passou em 2026 para um distribuidor nacional com acesso às grandes redes, e na Argentina a marca abriu uma rede de 20 lojas franqueadas para o verão. Na Europa, depois do tropeço de 2023, o volume voltou a crescer.

Três perguntas seguem sem resposta. A primeira é o que fazer com a Rothy's, que cresce mas sofre com as tarifas americanas sobre produtos fabricados na China e hoje é tratada como um investimento financeiro à parte. A segunda é até onde dá para subir o preço médio de um chinelo sem perder o volume que sustenta as fábricas da Paraíba, de Pernambuco e de Minas Gerais. A terceira é mais delicada: como uma marca cuja promessa é estar nos pés de todo mundo atravessa um país em que até a escolha do chinelo pode virar sinal de lado político.

O que a Havaianas ensina

A primeira lição está no produto. A Havaianas de hoje é praticamente a mesma de 1962: a mesma borracha, o mesmo formato, a mesma textura de grãos de arroz na palmilha. O que mudou foi tudo em volta dela: a cor, o preço, o lugar onde é vendida, quem aparece calçando. A marca saiu do chinelo de pobre para o tapete vermelho sem reinventar o objeto. Mudou a forma de olhar para ele.

A segunda lição é sobre escutar. As duas viradas mais importantes da Havaianas vieram de fora da sala de reunião. Em 1969, foi um defeito de fábrica que mostrou que as pessoas queriam cor. Nos anos 1990, foram surfistas que mostraram que o chinelo podia ser outra coisa se fosse usado ao contrário. Em ambos os casos, o mérito da empresa foi perceber o que estava acontecendo e ter coragem de vender aquilo.

A terceira lição é sobre o custo de se afastar do que se faz bem. A Alpargatas passou boa parte da sua história sobrevivendo a crises com produtos novos, e esse instinto a salvou várias vezes. Quando tentou fazer o mesmo no auge, espalhando a Havaianas por categorias que ela não dominava e comprando uma marca do outro lado do mundo, perdeu dinheiro, foco e o próprio presidente. O lucro recorde só voltou quando a empresa decidiu ser, de novo, uma fabricante de chinelos. Cuidar bem do que já funciona também é uma forma de mudar.

Perguntas frequentes

Quem é o dono da Havaianas?

A Havaianas pertence à Alpargatas S.A., empresa de capital aberto controlada desde 2017 pela Itaúsa, holding da família Setubal, e pela família Moreira Salles, por meio dos veículos Cambuhy e Brasil Warrant. Antes, a empresa foi controlada pelo Grupo Camargo Corrêa, de 1982 a 2015, e pela J&F, dos irmãos Batista, de 2015 a 2017.

A Havaianas é uma marca brasileira?

Sim. A Havaianas foi criada em São Paulo em 1962 pela Alpargatas e é fabricada no Brasil, em quatro fábricas: Campina Grande e Santa Rita, na Paraíba, Carpina, em Pernambuco, e Montes Claros, em Minas Gerais. A de Campina Grande é a maior.

Quando a Havaianas foi criada?

Em 1962. As primeiras sandálias tinham solado branco e azul e tiras azuis, e a Alpargatas obteve a patente do chinelo de dedo de borracha em 1966.

Por que o nome Havaianas?

O nome faz referência ao Havaí, que nos anos 1960 era o destino de férias dos sonhos das elites americanas e símbolo de verão, praia e descanso.

Por que a palmilha da Havaianas tem textura de grãos de arroz?

É uma homenagem à zori, sandália japonesa que inspirou o chinelo e que tinha solado de palha de arroz trançada. A textura também ajuda a evitar que o pé escorregue.

Como surgiram as Havaianas coloridas?

As primeiras cores além do azul surgiram em 1969, quando um erro de produção gerou um lote de tiras verdes que acabou vendido com sucesso. A linha de uma cor só, a Havaianas Top, foi lançada em 1994, inspirada em surfistas que usavam a sandália com o solado virado para cima.

Qual foi a polêmica da Havaianas com Fernanda Torres?

Em dezembro de 2025, um comercial de fim de ano em que Fernanda Torres brincava com a superstição do pé direito e sugeria começar 2026 com os dois pés foi interpretado por políticos de direita como mensagem eleitoral e gerou pedidos de boicote. O episódio teve repercussão internacional, mas as vendas da marca seguiram crescendo em 2026.

O que é a Rothy's e qual a relação com a Havaianas?

A Rothy's é uma marca americana de sapatos feitos com plástico reciclado. A Alpargatas comprou 49,9% dela em 2021 por US$ 475 milhões, numa aposta de diversificação que gerou uma baixa contábil de R$ 1,5 bilhão em 2023. Em 2025, a empresa decidiu não comprar o restante e manteve cerca de 49%.

Ficha da marca

  • Marca: Havaianas
  • Lançamento: 1962, São Paulo (SP)
  • Empresa dona: Alpargatas S.A., fundada em 3 de abril de 1907 pelo escocês Robert Fraser
  • Inspiração: a zori, sandália tradicional japonesa
  • Setor: calçados (sandálias de borracha), com coleções de moda e acessórios
  • Tickers na B3: ALPA3 e ALPA4
  • Controladores: Itaúsa e família Moreira Salles (Cambuhy e Brasil Warrant), desde 2017
  • CEO atual: Liel Miranda (desde fevereiro de 2024)
  • Fábricas: Campina Grande e Santa Rita (PB), Carpina (PE) e Montes Claros (MG)
  • Lojas no Brasil: cerca de 600 franquias, além de supermercados, atacarejos e lojas de calçados
  • Receita 2025: R$ 4,5 bilhões
  • Lucro 2025: R$ 568 milhões, o maior da história da empresa
  • Volume: mais de 200 milhões de pares por ano
  • Momento decisivo: o lançamento da Havaianas Top em 1994, que tirou o chinelo da imagem de produto barato
  • Capítulo em aberto: crescer no exterior com distribuidores, definir o futuro da Rothy's e subir o preço médio sem perder volume

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