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Bauducco: uma massa trazida de navio em 1950 virou a maior fabricante de panettone do mundo

Por · 6 de setembro de 2026

Numa sala da fábrica da Bauducco em Guarulhos existe algo que a empresa trata como um ser vivo. É alimentado à mão, todos os dias do ano, com farinha e água, e os funcionários chamam o cômodo onde ele vive de berçário. Não é força de expressão. Esse fermento natural, a massa madre, é o mesmo que Carlo Bauducco trouxe da Itália embrulhado num pano molhado, dentro de um navio, em 1950. Setenta e seis anos depois, ele ainda está vivo, e é a partir dele que nasce cada panetone que sai das linhas de produção da maior fabricante desse doce no mundo.

Para entender como um pedaço de fermento guardado com tanto cuidado se tornou o fio condutor de uma empresa que hoje fatura bilhões e acaba de abrir sua maior fábrica fora do Brasil, é preciso voltar a um imigrante italiano que veio ao país para cobrar uma dívida, e nunca mais foi embora.

Um vendedor italiano que veio cobrar uma dívida

Carlo Bauducco nasceu em 1906 em Turim, na Itália, um dos seis filhos de uma família que viveu tempos sombrios entre as duas guerras mundiais que devastaram o país. Ainda menino, aos 14 anos, sofreu um acidente de trabalho que feriu sua mão e acabou o isentando do serviço militar. Passou a vida trabalhando como vendedor, principalmente no comércio de café, e foi nessa condição de representante comercial que embarcou pela primeira vez rumo ao Brasil, em 1948, já com 42 anos.

O motivo da viagem não tinha nada de doce: Carlo vinha cobrar uma dívida de um fazendeiro de café a quem havia vendido, a prazo, quarenta máquinas de modelar pão. Mesmo sem falar uma palavra de português, conseguiu recuperar parte do dinheiro. Mas o que ficou daquela viagem foi outra coisa. Carlo se encantou por São Paulo, uma cidade que na época tinha uma comunidade italiana tão grande que seus dois principais jornais, o Estado de São Paulo, em português, e o Fanfulla, em italiano, vendiam praticamente o mesmo número de exemplares.

O panetone que não existia em São Paulo

Na Itália, Carlo já tinha uma vida constituída: era casado com Margherita Constantino e tinha um filho, Luigi. Nas viagens seguintes que fez a negócios entre os dois países, aconteceu o episódio que mudaria tudo. Era época de Natal, e Carlo queria comprar panetones para dar de presente, como fazia todos os anos na Itália. Procurou em São Paulo e não encontrou nenhum. Ocorreu-lhe então uma pergunta simples: por que não montar uma fábrica de panetones ali mesmo?

Equipe reunida em frente a uma loja Bauducco nos primeiros anos da confeitaria em São Paulo. Fonte: Imagens divulgação.
Equipe reunida em frente a uma loja Bauducco nos primeiros anos da confeitaria em São Paulo. Fonte: Imagens divulgação.

Em 1950, decidiu vender o que tinha na Itália e se mudar em definitivo para o Brasil com a esposa e o filho. Voltou naquele mesmo ano trazendo duas coisas essenciais para o plano: o confeiteiro Armando Poppa, seu conterrâneo, e um pedaço de massa madre, fermento natural com registros que remontam a milhares de anos antes de Cristo, embrulhado num pano molhado para sobreviver à travessia de navio. Carlo não sabia cozinhar, então coube a Poppa criar a receita original do doce recheado de frutas cristalizadas.

A doceria do Brás

Havia só um problema: a lei brasileira da época exigia que estrangeiros só abrissem empresas com sócios brasileiros. Carlo se associou a três irmãos brasileiros, filhos de um imigrante italiano, para contornar a exigência. Quando a lei foi extinta, em 1952, ele finalmente inaugurou seu próprio negócio, a Doceria Bauducco, uma pequena confeitaria no bairro do Brás, em São Paulo, que produzia panetones, biscoitos tipo champanhe, doces e salgados.

Balcão de uma loja Bauducco, com balanças, caixa registradora e panetones nas prateleiras. Fonte: Imagens divulgação.
Balcão de uma loja Bauducco, com balanças, caixa registradora e panetones nas prateleiras. Fonte: Imagens divulgação.

A família toda trabalhava na confeitaria. Luigi ajudava na produção e nas vendas, Margherita cuidava da administração. Carlo, mesmo sem formação em marketing, tinha instinto para ele: pouco depois de abrir a loja, encheu um avião de folhetos publicitários e os espalhou pela cidade. O estoque inteiro vendeu em três dias.

O fermento que veio embrulhado num pano molhado

Nem tudo eram flores. A farinha disponível no Brasil não tinha o teor de glúten necessário para dar liga e elasticidade à massa do panetone, e muitos lotes simplesmente não cresciam direito. Foi a massa madre trazida por Carlo, viva desde 1950, que resolveu esse problema estrutural. Diferente do fermento comum, ela se comporta como um organismo que precisa de cuidado constante, alimentado manualmente com farinha e água, todos os dias, sem exceção. É essa mesma cultura, tratada até hoje como algo quase vivo, que segue na base de cada panetone Bauducco.

Fachada da Doceria Bauducco na Avenida São Gabriel, em São Paulo. Fonte: Imagens divulgação.
Fachada da Doceria Bauducco na Avenida São Gabriel, em São Paulo. Fonte: Imagens divulgação.

O salto industrial e a caixa que não amassava

O salto da produção artesanal para a industrial veio em 1962, com a inauguração de uma fábrica de 600 metros quadrados em Guarulhos. Anos depois, observando que os brasileiros tinham o hábito de apalpar o produto nas prateleiras, o que muitas vezes estragava o panetone, a empresa criou uma embalagem mais resistente, de papelão, que se tornaria um símbolo da marca. A mesma lógica foi aplicada depois à linha de biscoitos, um ajuste pensado para a compra por impulso, comum nos supermercados da época. Em 1979, a empresa fez suas primeiras exportações para os Estados Unidos.

Executivo ao lado de produtos da linha atual da Bauducco, como o Creamy Cookie e os wafers. Fonte: Imagens divulgação.
Executivo ao lado de produtos da linha atual da Bauducco, como o Creamy Cookie e os wafers. Fonte: Imagens divulgação.

Chocotone, torradas e a crise dos anos 1980

Anúncio de época com as embalagens do Panettone Bauducco e do Chocottone com gotas de chocolate. Fonte: Imagens divulgação.
Anúncio de época com as embalagens do Panettone Bauducco e do Chocottone com gotas de chocolate. Fonte: Imagens divulgação.

Os anos 1980 foram duros para o Brasil inteiro, com hiperinflação corroendo a economia. A Bauducco vivia um risco estrutural: o panetone respondia por 90% do faturamento da empresa. A resposta foi diversificar, com o lançamento de torradas e da Columba Pascal, o bolo de Páscoa em formato de pomba. Mas a criação mais emblemática desse período nasceu de uma ideia de Massimo Bauducco, da família fundadora: o chocotone, uma versão do panetone recheada de chocolate em vez de frutas cristalizadas, que conquistou justamente os clientes que não gostavam da versão tradicional.

Linha de embalagem numa fábrica da Bauducco, com operárias montando as caixas de panetone. Fonte: Imagens divulgação.
Linha de embalagem numa fábrica da Bauducco, com operárias montando as caixas de panetone. Fonte: Imagens divulgação.

O incêndio que quase acabou com tudo

Em 11 de janeiro de 1981, a fábrica de Guarulhos pegou fogo e boa parte dela foi destruída. Muita gente achou que ali terminaria a história da Bauducco. Mas amigos da família se mobilizaram: o dono da concorrente Seven Boys chegou a enviar mecânicos para ajudar na reconstrução, e outros emprestaram equipamentos. Pouco a pouco, a fábrica foi reerguida.

Sol, trigo e a consolidação do mercado

Depois desse segundo susto, a empresa deu um novo salto. Associou sua imagem ao sol e ao trigo, os ingredientes-base de seus produtos, renovou as embalagens e lançou um filme publicitário contando a chegada da família Bauducco ao Brasil, peça que rendeu diversos prêmios de marketing e acelerou o crescimento da marca. Em 2001, a empresa comprou sua principal concorrente, a Visconti, consolidando cerca de 70% do mercado brasileiro de panetones. Nos anos seguintes, o portfólio se ampliou para biscoitos de vários tipos, bolos e barras recheadas, e em 2008 a família Bauducco chegou a assumir 49% da subsidiária brasileira da Hershey's, em troca de acesso à distribuição da marca americana no país.

Da fábrica às lojas próprias

Em 2012, inspirada em empresas como Apple e Coca-Cola, que investem em lojas próprias, a Bauducco deu início à Casa Bauducco, sua rede de lojas de fábrica e conceito. O crescimento foi acelerado: de pouco mais de 100 unidades há alguns anos, a rede já ultrapassa 200 lojas pelo país, com planos de expansão contínua.

A fábrica que cruzou o Atlântico de volta

A internacionalização seguiu em paralelo. A Bauducco inaugurou sua primeira fábrica fora do Brasil em Miami, em 2018, e hoje distribui seus produtos em mais de 50 países, com mais de 70 mil pontos de venda só nos Estados Unidos. Em 2026, a empresa deu seu maior passo internacional até aqui: inaugurou em Zephyrhills, na Flórida, um investimento de 200 milhões de dólares, sua maior fábrica fora do Brasil. A unidade dobra a capacidade produtiva da empresa em solo americano, e a partir do fim de 2026 vai produzir mini panetones e chocotones por lá, tornando a Bauducco a primeira empresa a fabricar panetone dentro do território americano. A fábrica também deve se tornar o centro de distribuição da empresa para futuras exportações à Ásia e à Europa. Hoje a marca já detém 86% do mercado de panetones nos Estados Unidos.

Vista aérea da fábrica da Bauducco em Miami, a primeira da empresa fora do Brasil, inaugurada em 2018. Fonte: Imagens divulgação.
Vista aérea da fábrica da Bauducco em Miami, a primeira da empresa fora do Brasil, inaugurada em 2018. Fonte: Imagens divulgação.

Carlo Bauducco morreu em 1972, em São Paulo, aos 66 anos, sem ver nada disso. A empresa segue com 100% do capital nas mãos da família, hoje sob a presidência de Massimo Bauducco, neto do fundador, com o irmão mais novo, Carlo Andrea Bauducco, na vice-presidência e cotado para sucedê-lo. A operação do dia a dia é comandada por um executivo profissional, Andrea Martini, reflexo de uma profissionalização que a própria família reconhece ter acontecido nos últimos anos.

Discurso na inauguração da fábrica de pães da Bauducco, em dezembro de 2019. Fonte: Imagens divulgação.
Discurso na inauguração da fábrica de pães da Bauducco, em dezembro de 2019. Fonte: Imagens divulgação.

O que a Bauducco ensina

A trajetória da Bauducco nasceu quase por acaso, de uma dívida que Carlo foi cobrar e de uma vontade pessoal de comer panetone no Natal. O que sustentou a empresa depois não foi um plano de negócios elaborado, foi a teimosia de manter viva, literalmente, uma cultura de fermento trazida de navio, alimentada todos os dias, mesmo quando a empresa cresceu para se tornar uma fabricante industrial que hoje exporta para meio mundo.

Isso é o que separa a Bauducco de tantas outras marcas de alimentos que cresceram rápido demais e perderam o que as tornava especiais. A empresa nunca parou no tempo: diversificou quando o panetone sozinho virou um risco financeiro real, nos anos 1980, e continua abrindo fábricas em outros continentes. Mas também nunca abriu mão do que a define, porque insiste em carregar a mesma massa madre para cada nova fábrica que constrói, inclusive a mais nova, do outro lado do Atlântico. A fórmula não mudou. Só o mapa ficou maior.

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Continue a saga: a Bauducco inaugurou sua maior fábrica fora do Brasil, em Zephyrhills, na Flórida, um investimento de US$ 200 milhões que vai tornar a empresa a primeira a fabricar panetone em solo americano.

Mesmo padrão: a Tramontina também abriu, em 2025, sua primeira fábrica fora do Brasil, uma joint venture na Índia, o mesmo movimento de uma indústria familiar brasileira levando sua produção para fora pela primeira vez em décadas de história.

Desfecho oposto: a Hostess, dona dos Twinkies, quebrou em 2012 depois de não conseguir modernizar a operação em meio a uma greve, e a marca só voltou ao mercado depois de ser comprada por fundos de investimento, sem nenhum vínculo com os donos originais, o caminho inverso ao da Bauducco.

Perguntas frequentes

Quando e por quem a Bauducco foi fundada?

Em 1952, no bairro do Brás, em São Paulo, pelo imigrante italiano Carlo Bauducco, que abriu a Doceria Bauducco depois que uma lei que exigia sócios brasileiros para empresas estrangeiras foi extinta naquele ano.

Por que Carlo Bauducco veio para o Brasil?

Ele veio pela primeira vez em 1948 para cobrar uma dívida de um fazendeiro de café que havia comprado máquinas de modelar pão dele. Encantou-se por São Paulo e, alguns anos depois, decidiu se mudar em definitivo para abrir uma fábrica de panetones, doce que não encontrava à venda na cidade.

O que é a massa madre da Bauducco e por que ela é tão importante?

É um fermento natural que Carlo trouxe da Itália embrulhado num pano molhado, em 1950. Diferente do fermento comum, precisa ser alimentado manualmente todos os dias com farinha e água, e é a mesma cultura, ainda viva, que serve de base para todos os panetones da marca até hoje.

Como nasceu o chocotone?

Da ideia de Massimo Bauducco, da família fundadora, de criar uma versão do panetone recheada de chocolate em vez de frutas cristalizadas, pensada para atrair consumidores que não gostavam da receita tradicional.

A Bauducco ainda é uma empresa familiar?

Sim, o capital é 100% da família Bauducco. A presidência é de Massimo Bauducco, neto do fundador, com o irmão Carlo Andrea Bauducco na vice-presidência. A operação do dia a dia, porém, é conduzida por um executivo profissional, Andrea Martini.

Quanto a Bauducco fatura e qual o tamanho da empresa hoje?

A empresa faturou cerca de R$ 5 bilhões em 2022, tem por volta de 6 mil funcionários, produz mais de 80 milhões de panetones e chocotones por ano e é considerada a maior fabricante de panetones do mundo, distribuindo para mais de 50 países.

Qual é a novidade mais recente da Bauducco?

Em 2026, a empresa inaugurou sua maior fábrica fora do Brasil, em Zephyrhills, na Flórida, um investimento de US$ 200 milhões que vai fazer dela a primeira empresa a fabricar panetone em solo americano, servindo também como base para futuras exportações à Ásia e à Europa.

Ficha da marca

  • Marca: Bauducco
  • Fundação: 1952, bairro do Brás, São Paulo, como Doceria Bauducco
  • Fundador: Carlo Bauducco
  • Setor: panetones, biscoitos, bolos e produtos forneados
  • Controle: capital fechado, 100% família Bauducco
  • Presidente atual: Massimo Bauducco (terceira geração)
  • CEO atual: Andrea Martini
  • Faturamento: cerca de R$ 5 bilhões (2022)
  • Funcionários: cerca de 6 mil
  • Presença: mais de 50 países, maior fabricante de panetones do mundo
  • Capítulo em aberto: em 2026, inaugurou sua maior fábrica fora do Brasil, em Zephyrhills (Flórida), tornando-se a primeira empresa a fabricar panetone em solo americano

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