Episódio #15 · 19 de dezembro de 2025 · 1h52

O primeiro cientista a pesquisar no espaço será brasileiro, com Alysson Muotri

Com Alysson Muotri e Francisco Paiva Júnior · apresentação de Gian Franco Rocchiccioli

Sobre o episódio

Alysson Muotri recria tecido cerebral humano em laboratório a partir de células da pele. A técnica, que parte da reprogramação celular descoberta por Shinya Yamanaka, permitiu a ele observar pela primeira vez um neurônio autista, mostrar que as alterações da síndrome de Rett podem ser revertidas e chegar a um medicamento hoje aprovado. Para acelerar o envelhecimento dos minicérebros, levou a pesquisa ao espaço: em parceria com a NASA, já foram nove missões à Estação Espacial Internacional, e ele se candidatou a ser o primeiro cientista a conduzir os próprios experimentos em órbita.

A conversa vai do gene NOVA1, que ajuda a explicar por que os humanos modernos desenvolveram a linguagem e os neandertais não, ao autismo como experiência de vida. Alysson conta como conheceu Andreia e Ivan, e Francisco Paiva Júnior relata o diagnóstico do filho Giovani, a criação da Revista Autismo e os vídeos de treino para entrevista de emprego que passaram de 2,6 milhões de visualizações.

Os dois explicam a Tismoo, startup de saúde digital da qual Gian também é sócio, que cria planos de cuidado personalizados para pessoas autistas e suas famílias com apoio de uma inteligência artificial treinada em fontes científicas. No caminho, discutem o tempo da ciência, a diferença entre conhecimento e sabedoria e os desafios da transição para a vida adulta.

Trechos em destaque

“Cada mês no espaço é o equivalente a 10 anos em terra.”
Alysson Muotri · 31:38
“Essa variante genética trouxe a linguagem verbal complexa que a gente está usando agora. É o nosso superpoder humano.”
Alysson Muotri · 43:13
“Não quero desenvolver um medicamento que seja impossível. Eu quero uma coisa acessível.”
Alysson Muotri · 50:56
“Quem mais precisa de informação não pode comprar um livro no Brasil. Vou lançar uma revista gratuita.”
Francisco Paiva Júnior · 57:00
“A gente está enriquecendo em termos de conhecimento e empobrecendo em termos de sabedoria.”
Gian Franco Rocchiccioli · 1:12:41
“Às vezes a solução é simples, mas chegar na solução talvez seja complexo.”
Francisco Paiva Júnior · 1:28:38

Capítulos

  1. 0:00Abertura
  2. 1:55Minicérebros e a parceria com a NASA
  3. 7:42Yamanaka e a reprogramação celular
  4. 12:57O primeiro neurônio autista em laboratório
  5. 16:29É possível reverter uma condição genética?
  6. 19:32Ceticismo, replicação e o tempo da ciência
  7. 23:10Do tecido em duas dimensões ao minicérebro que funciona
  8. 28:02Por que levar minicérebros ao espaço
  9. 31:38Nove missões e o cientista astronauta
  10. 36:24Neandertais, o gene NOVA1 e a linguagem
  11. 44:31Como o autismo entrou na pesquisa
  12. 49:01Ivan, Andreia e o propósito
  13. 52:23Os primeiros tratamentos
  14. 54:17Giovani e a Revista Autismo
  15. 58:23Como nasceu a Tismoo
  16. 1:04:37Autismo, um alvo em movimento
  17. 1:12:41Conhecimento e sabedoria
  18. 1:16:15Saúde digital e a inteligência artificial da Tismoo
  19. 1:26:49Quando a solução é o horário do remédio
  20. 1:31:27A primeira entrevista de emprego de Giovani
  21. 1:38:29Os desafios da vida adulta
  22. 1:45:52Encerramento
Transcrição completagerada a partir da legenda automática do YouTube, com revisão de nomes
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Olá, olá, olá. Bem-vindos ao Trocando a Lente, um podcast em que o convidado tem a responsabilidade de compartilhar com a nossa audiência a sua lente para enxergar o mundo.Legal. meu nome é Gian Franco Rocchiccioli, eu sou sócio e de estratégia da Pande, uma das principais consultorias de branding da América Latina. E eu tô aqui hoje, vou começar direto com dois grandes amigos, Dr. Alysson Muotri e Francisco Paiva Júnior. Alysson, por favor, dá um olá pr pra galera aí.Obrigado, Gian. Prazer estar aqui com você, poder falar aí de ciência, autismo, uma série de ah assuntos que é muito interessante pra sociedade, né?

0:50

Muito interessante divulgar pra sociedade. Obrigado pela oportunidade.Bom, eu você Paiva Paiva tá aqui para me ajudar na entrevista, jornalista, mas por favor fala um pouco de você, Paiva.Legal. Obrigado, Gian, também pela oportunidade. É um prazer tá aqui no no Trocando a Lente e a gente vai conversar sobre muita coisa interessante, né? e que eu também tô tô envolvido de certa forma ali porque o autismo faz parte aí da minha vida. Eu acho que a gente vai falar um pouquinho depois a respeito, né?É isso aí. Bom, ô, ô, Alysson, eu colei um uma abertura que eu achei espetacular, a abertura do Pedro Bial, que eu eu vou falar aqui exatamente as mesmas palavras que ele falou para te apresentar. Um brasileiro na vanguarda das pesquisas mais avançadas, em busca de respostas paraa nossa pergunta mais ancestral, que é: quem somos nós, seres humanos? Né? biólogo neurocientista, recriou o cérebro humano em laboratório e faz isso para entender transtornos e doenças também, né, como transtornos como autismo e doenças como o Alzheimer.

1:55

A pesquisa dele já levou o desenvolvimento de um remédio para uma forma grave do autismo e mais a pesquisa dele também já, segundo o Bia, já chegou, né, no espaço, Estação Espacial Internacional. A gente acompanhou essa história pelos bastidores, né, e tá dando uma mãozinha pra NASA para entender o envelhecimento cerebral, né, que é um passo essencial pra exploração, pro desejo de exploração interplanetária do ser humano. Ou seja, é um brasileiro explorador da mente humana, do mistério que nos faz humanos e que tá preste a se tornar o primeiro cientista do mundo a fazer pesquisa ele mesmo em loco lá no espaço. E temos aqui a honra de ter, né, o privilégio de ter e receber aqui hoje no nosso podcast meu amigo, sócio, Alysson Muotri. Alysson, assim, como é que você embarcou nessa de dividir esses desafios da humanidade com a NASA? Como é que surgiu esse esse? Você sabe que com a NASA foi interessante porque a gente tem esse modelo, né, de recriar o cérebro humano. A gente usa células tronco, né, para criar, na verdade, né, são tecidos neurais, não é uma miniatura perfeita do cérebro humano.

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Quem fala minicérebro, parece que é um cérebro inteiro, né? Mas são tecidos neurais, né, que tem tanto a anatomia, a os tipos celulares mais importantes do cérebro e mais importante o funcionamento das redes neurais. a gente consegue fazer tudo isso dentro de um laboratório, fora do corpo humano, fora do útero humano, né, que é onde o cérebro nasce. Então a gente consegue ter essa recreação desse tecido neural. E esse tecido neural, né, como você mencionou corretamente na tua introdução, tem sido usado, né, pro entendimento de transtornos e doenças neurológicas, né? Então a gente busca ali, ter uma compreensão melhor de como é que o cérebro humano funciona e quando que esse funcionamento é desviado, né? hã, e vir ali um problema pro indivíduo, né? Então, é isso que a gente chama de, condições neurológicas, né? E quando é um problema, a gente busca uma solução, como é que a gente pode ajudar esse indivíduo? E são milhares de pessoas, milhões de pessoas no mundo, né, que sofrem com diversos tipos de doenças neurológicas. E a gente nunca teve um modelo para estudo do cérebro humano, né?

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Esse é um ponto importante, né? Como é que se estuda o cérebro humano? A plataforma vem para se transformar num modelo conta.Exatamente, né? Tradicionalmente a gente estuda o cérebro humano através de modelos animais, né? O modelo mais usado na ciência é o camundongo, né? E durante muito tempo foi o modelo que foi mais usado até para recapitulagem de doenças humanas genéticas. Por exemplo, você pode manipular o genoma do Camundongo para que ele represente ali uma condição genética,o que dá claramente para perceber que não é a melhor plataforma para estudar as nossasexatamente, principalmente condições, né, que são unicamente humanas, que são derivadas das variações do cérebro humano, como o espectro do autismo, né? Então não é o modelo ideal, né? E a outras formas de estudar o cérebro humano são formas não invasivas, né? Ou seja, um EG, uma ressonância magnética, aonde você indiretamente infere o funcionamento do cérebro, mas não tem a resolução suficiente para você entender a nível celular e molecular. Você não consegue observar o funcionamento de uma sinapse, não consegue observar quando um gen é ativado, desativado. Então, tudo isso sofre, né? Por causa disso, a gente não tem tratamentos eficazes, né, para doenças neurológicas, da mesma forma que a gente hoje em dia consegue tratar um coração, consegue tratar uma diabetes, porque a gente tem acesso ao tecido, né?

5:29

E então essa inacessibilidade do tecido, né, o nosso modelo vem trazer ali como uma resposta. é um modelo que também tem as suas limitações, como eu falei, não é uma miniatura perfeita, né, do cérebro humano, mas nos ajuda a entender ali justamente essa parte que falta, a parte molecular, celular e como as networks funcionam. A, o interessante com a NASA, né, foi que o cérebro humano é essencial paraa exploração interplanetária, né, ele, você precisa de um humano, né, para começar a fazer essa exploração. Então, por mais que a gente imagine que o começo, por exemplo, de uma viagem à Marte seja feito através de uma robótica, né, a gente ainda não tem uma robótica que seja capaz, por exemplo, de fazer um movimento da mão humana, né? Essa essa capacidade que a gente tem de mexer os cinco dedos não é reprodutível. na robótica ainda pode ser que no futuro chegue, né? Então a gente vai precisar de humano. E a capacidade de tomar decisões, né, em loco, sobre algo que não sai como o esperado também é um pouco restrito nas plataformas até de inteligência artificial ou ou plataformas robóticas.

6:37

Então, a gente vai precisar do humano ali, né? Só que a viagem espacial tem um grande problema, né? Que é a senescência ou o envelhecimento do tecido neuralacelerado, né?Acelerado, né? Então, para resolver isso, a gente fez essa parceria com a NASA. Então, eu exploro doenças neurológicas, né, para trazer tratamentos pra Terra, ao mesmo tempo que esses tratamentos vão ajudar os astronautas na exploração espacial. Então, é ali que essa intersecção, né, que fez com que a gente se aproximasse.Olá, pessoal, Alysson Muotri aqui. Eu tô e esperando o lançamento do Fal que vai levar a cápsula Dragon com nossos minicérebros até a estação espacial. Tá alguns minutos aí pro lançamento, deve levar aí mais 10 minutos, mas já começou o countdown aqui. A gente tá no USB, que é a o headster de controle da NASA, que vai est acompanhando esse foguete por todo esse momento. É um foguete preparado aqui nesse nesse prédio, né? E ele é montado e num dos lands. Ele vai acontecer ali na frente.

7:42

Nós estamos acompanhando o tempo, né, para ver se o tempo melhora. E a partir daqui é torcer para que a coisa aconteça.E conta um pouco como é que surgiu a possibilidade dessa plataforma, né? é Yamanaka, né?É. É.Conta um pouco dessa história. Acho que a grande maioria das pessoas não conhece tanto sobre ciência, célula tronco e etc. explica um pouco com com a linguagem que você sabe explicar como é que nasceu essa possibilidade de você fazer uma reversão celular. E aí, como é que isso se desdobrou até chegar no momento que você teve a ideia de, pô, vou fazer uma plataforma aqui de minicérebro?Deixa eu até interferir nessa nessa pergunta, Gque foi como eu conheci o Alysson, né?vi o Alysson no Jornal Nacional falando que conseguiu reverter uma célula autista, né? Eu falei: "Caramba, né?

8:35

Como é que acontece isso?Como é que acontece isso?" era numa numa placa de petre ainda não tinha minicérebro, não tava não tinha colocado ainda numa estrutura tridimensional, né? Mas essa é a história do Yamanaka, né? De fazer células pluripotentes induzidas, né? As IPS células, né? Acho que isso que é muito legal explicar como que a gente sai da pele pro cérebro, né? É, então, e eu quando terminei o meu doutorado, né, aqui no Brasil, eu sempre quis trabalhar com neurociência e eu sempre quis trabalhar com o cérebro humano. Meu interesse sempre foi em responder questões existenciais, né, quem quem nós somos, como para onde vamos, da onde viemos, né? E para responder essas questões, eu procurava o modelo de estudo do cérebro humano, né? Então eu saí pros Estados Unidos, procurei o melhor laboratório de neurociências e ao chegar lá descobri que, como todos os outros laboratórios de neurociência se trabalhava com modelo animal. E eu, insatisfeito com isso, busquei uma forma de criar um modelo humano, né? E a única forma de você recriar o cérebro humano é através de células embrionárias humanas, né? Que são as células que começam ali no embrião, que dão origem ao cérebro humano e outros tecidos neurais. Só que obter essas células embrionárias são é complicado, né? A gente dependia de clínicas de fertilização em vitrio.

9:51

É complicado tecnicamente ou eticamente?As duas coisas. As duas coisas, né? manter essas células, porque em laboratório era complicado, porque são células que fazem parte do embrião. O embrião não para lá, fica te esperando, o embrião se desenvolve, né? Então, a gente teria que congelar aquele estado embrionário, né, dentro do laboratório. Então, ninguém sabia fazer isso direito, né? E a outra parte ética era porque essas células eram derivadas, né, do embrião humano, né, e essa derivação era complicada porque dependia do descarte do embrião humano e da destruição do embrião humano para você adquirir essas células. Então, muito complicado, né? Mas mesmo assim eu comecei a me aventurar nessa área, né? Foi uma das primeiras pessoas a cultivar, né, essas células embrionárias humanas em em laboratório, né? Mas devido a essa aVocê já tava lá em San Diego? já estava em San Diego, na Califórnia, né? mas devido, né, a principalmente às questões éticas e morais do uso dessa células, né, era muito difícil que eu continuasse a pesquisa. Foi aí que hã em 2006 hã um pesquisador japonês chamado Shinya Yamanaka, um colega meu, né, apresentou que era possível fazer o que a gente chama hoje de reprogramação celular, o que nada mais é de você pegar uma célula que já tava especializada, uma célula que já passou pelo processo embrionário, se tornou um tecido, por exemplo, a pele,uma célula adulta, jáuma célula adulta, uma uma pele ou um sangue de um adulto, né?.

11:19

E através da ativação de quatro genes dentro dessa célula, ela era reprogramada a um estágio embrionário,ou seja, ela volta no tempo,ela volta no tempo, né? Então ela rejuvenece,né? Ela volta no tempo e para nesse estágio ah embrionário.Aliás, o Yamanaka foi meio que desacreditado quando apresentou isso, né?Foi. E a,aliás, essa é uma característica da ciência, né? É, nasce uma inovação, tem um grupo, não sei se é da própria ciência,que tenta dizer que aquilo não énão é possível,não é possível, isso aí não vai dar certo.E ah, no começo, né, eram muito poucas pessoas que trabalhavam com esse tipo de célula embrionária, né? Então, a gente ia nos nos encontros, eram encontros anuais que tinham, né, e juntava ali 50 pessoas, né? Para você ter uma ideia, a gente tá falando de, né, um um encontro desses da sociedade internacional.

12:09

Formou-se uma sociedade internacional de estudo de células tronco, a gente reúne lá 10, 15.000 pessoas fácil, né? Era,eram 50, né? E eu tava lá no meio de 50, eu e o Yamanaka, né?E aí o Yamanaka tava apresentando os dados dessa pesquisa e obviamente ninguém conseguia acreditar, né, que bastava a ativação de quatro genes.Era muito simples para dar,era muito simples, né? depois de um tempo ele acabou revelando, né, quais seriam esses quatro genes e como fazer isso, né? E era um processo extremamente simples, né? Extremamente replicável. Então eu imediatamente voltei pro laboratório, né? Tentei e consegui. Falei: "Olha, reprogramei uma célula humana. Essa era uma célula da pele de um adulto humano, né, vivo, né, um indivíduo vivo. E eu agora tenho as células embrionárias daquele adulto.

12:57

E você já tinha direção dessa tecnologia para aquilo que você queria. Exatamente. E eu tava buscando uma solução para poder comparar o estudo de células embrionárias e derivar células nervosas, né, de indivíduos normais ou controles ou neurotípicos, né, a de indivíduos autistas ou aqueles indivíduos, né, sofrendo de condições genéticas, né? Então, ao fazer a reprogramação, eu consigo trazer os dois grupos, né, os neurotípicos e os autistas para esse estágio embrionário e a partir daí fazer aquilo que eu me especializei, que é produzir células nervosas ou tecidos neurais, né? E quando a gente fez essa hã essa comparação, a gente descobriu, né, que os neurônios ali derivados de autistas, e no caso era uma forma sindrômica do autismo, que era da síndrome de Rett, né? havia alterações morfológicas, né? A forma desses neurônios eram alteradas, o desenvolvimento deles era era desacompanhado dos neurotípicos, né?

13:59

Tinham uma desessincronicidade e o número de sinapses era bem reduzido também, né? Então, só de observar isso já foi muito interessante.Ou seja, você comparando com um cérebro, uma célula normal, né, vamos chamar assim, sem aquela mutação. E no caso do H é no MECP2, né? Isso. O G chamado,você conseguir identificar e a as diferenças de comportamento entreé as duas,ou seja, aí já é um marco que foi a primeira vez que alguém viu uma diferença morfológica celular em alguma forma de de autismo na mica, né? Exatamente. Exatamente.E por que que você escolheu o RET? Porque tem uma causa, né, de você ter escolhido o RET como plataforma inicial. Teve duas razões por causa porque a gente acabou escolhendo, né, autistas com mutações no MECP2, né, que hoje a gente define como síndrome de Rett.

14:47

Ah, como o autismo é muito heterogêneo, né? se a gente optasse por escolher, diferentes tipos subtipos de autismo, era possível que cada um deles tinha uma etiologia, né, ou um mecanismo molecular celular diferente, né, e isso iria confundir os nossos dados. Então, a gente preferiu agrupar pessoas com a mesma característica genética. Então, escolhemos um gen e só vamos recrutar pessoas que têm mutações naquele gem, né, que é um grupo mais ah mais coeso, um grupo mais semelhante entre eles, aumentando a nossa chance de descobrir a diferença. A segunda razão, né, é porque eu já trabalhava com a síndrome de Rett, né, e quando eu cheguei nos Estados Unidos. Eu eu fui com uma uma bolsa americana, uma bolsa da PI, né? E depois de dois anos eu não, essa bolsa acabou, né? E quem me manteve nos Estados Unidos foi a Associação da Síndrome de HT, porque acreditava, né, que o meu trabalho levaria ali, né, alguma h alguma algum melhor entendimento dessa condição. Então, eu já trabalhava com essa com essa condição, né? E ah e ao fazer e observar essas modificações, né, o Paiva tá corretíssimo. É a primeira vez que a gente tinha gerado, né, em laboratório um neurônio, né, autista. E aí foi a primeira vez que a gente observou as diferenças, né? Então esse essas duas observações, né? quebraram ali diversas barreiras da neurociência, né? Então foi a primeira vez que a gente usou a tecnologia do Yamanaka para comparar grupos de condições diferentes, né? Que o Yamanaka

16:29

Não tinha essa intenção, ele não tava, não era isso, não foi por isso que ele fez, né? E hã, então a gente usou essa tecnologia para isso, mas aí veio a segunda pergunta que a gente se fez ao ao ter esses resultados, né, que foi será que a gente consegue reverter a condição? Será que a gente consegue transformar esses neurônios com a síndrome de Rett que carregam essa mutação nesse gene? Uma mutação genética. As pessoas já nascem com essa condição. Será que a gente consegue reverter essa condição para um estado semelhante ao neurotípico? né? E foi uma pergunta até um pouco ousada, né, olhando para trás, porque na época a o dogma da neurociência era que condições do neurodesenvolvimento, né, passado o período crítico, que são os primeiros anos de vida, né, não tem retorno, não tem o que fazer.

17:21

Irreversível. É, é só passa pelas podas neurais, passa pelas pela formação das sinapses. Uma vez que as sinapses são formadas, é irreversível, o cérebro já tá wired, já tá conectado, né? Conectado de uma certa forma. Esse é o teu cérebro, você vai ficar com ele pro resto da vida, né?E dogmas, porque como todos os outros, eles vão caindo ao longo do tempo.Eles vão caindo e e para cair tem essa resistência, né? Aí a gente começou a a pensar em formas de, né? ah, reverter essa condição genética. Então, a gente testou duas dois que hoje são dois tratamentos muito promissores, né? Um é um tratamento farmacológico, né? Então, a gente usou ah medicamentos que a gente sabia que poderiam aumentar o número de sinapses, né? E ahã e uma forma de terapia gênica, né? Que era corrigindo a reposição genética do gen fáho, né? Da do gen mutado.

18:15

E como é que acontece essa conta um pouco como é que acontece essa correção do gen? É, ah, essa coisa na época o que a gente usou, né, foi um vetor viral, né, ou seja, é um vírus um vírus de resfriado, né, que a gente manipula ele geneticamente para carregar, entregar o gen correto para dentro da célula neural, né?Del delivery por vírus, né?É um iFood dos gênes.Isso. Isso é como se a célula não tivesse o gem correto, porque ela tá mutada, né? E a gente faz o vírus fazer esse delivery do gen correto. E uma vez que que o vírus entrega o gen correto para dentro da célula, a célula incorpora aquele gen correto e passa a usar o gem correto ao invés do gem mutado.Entendi. E ao fazer isso, que a gente observou que todas aquelas alterações, mesmo depois de já prontas, já formadas, né, a alteração das redes neurais, elas se revertem, né, depois de duas semanas, tanto do tratamento farmacológico quanto do tratamento com a terapia gênica, as células neurais de RET já passam a ficar indistinguíveis das células dos neurotípicos. Então esse resultado, né, foi o resultado que chamou mais atenção de todo mundo, né, porque já era uma expectativa que a tecnologia do Yamanaka fosse usada.

19:32

Isso foi em 2007, né, se não me engano foi, é, a gente obteve os resultados lá em 2000, 2008, 2009 e saiu uma publicação em 2010,que foi quando você saiu no Jornal Nacional que Andreia te viu lá, né? éoutubro, novembro mais ou menos, né, de 2010, porque daí em dezembro de 2010 eu tavaconversando com ele pela primeira vez.É, é um resultado impressionante, né? Então, assim, foi recebido pela comunidade científica com surpresa, mas também com uma certa resistência, né? Então, assim, teve muita, ah, muitas pessoas, muitos outros grupos que achavam que eu poderia estar com um artefato, né? Olha, aquilo não foi que realmente aconteceu, não houve realmente uma reversão. O que você tá tendo ali é uma é um artefato, né? Então vamos tentar descobrir o que que aconteceu de errado aquipara dar certo.

20:23

Para dar certo.Que que aconteceu de errado para dar certo.Mas assim, como a tecnologia do Yamanaka é simples e as tecnologias que nós usamos também foi muito simples, né? Basta você fazer um tratamento farmacológico ali, né?Que nessa época usou o IGF1, não foi?A gente usou uma molécula que chama IGF1, que é o Insulin Grow Factor One do inglês, né? Então tinha que era fácil acesso, basta comprar. Era uma molécula, era um tratamento farmacológico já utilizado pro nanismo, por exemplo, né?Então, muito muito fácil de de conseguir. Então, outros grupos fizeram a mesma coisa, replicaram o resultado, falaram: "Olha, como é que ele tá certo?É que deu certo mesmo".E aí isso daí abriu toda essa área, né? Que hoje em dia são milhares de laboratórios se dedicando a isso, a diversas formas de autismo e e diversas outras condições neurológicas. Ee conta um pouco, você falou sobre duas abordagens, né? uma farmacológica e a outra genética, né?esse obviamente isso tudo feito em laboratório nos na plataforma de minicérebro, né? Então,quanto tempo entre o desenvolvimento, por exemplo, esse da síndrome de Rett e isso chegar até as pessoas como uma solução de fato, quanto tempo a ciência demora para cumprir com esse com esse de evolução? Exato. Processo é o processo tradicional, né? né? Uma vez que você tem uma descoberta em laboratório, você tem que atravessar três estágios clínicos, ou seja, são testes já em pessoas, testes clínicos, né, feitos para detectar se o tratamento é tóxico.

21:50

Primeiro, porque se for tóxico você já descarta, né? Então é o primeiro mote da medicina que é não causar nenhum dano ao paciente, né? Então a gente faz primeiro um teste muito piloto, né? Para descobrir se se tem alguma toxicidade, né? Nesse caso foi relativamente tranquilo pra gente, porque a droga já era ousada, né, para um para um certo tratamento.Ou seja, você antecipou esseantecipamos isso. Então a gente ganhou alguns anos aí, né, mas mesmo assim a gente tinha que mostrar que não era tóxico pra síndrome de Rett, né? Ele já sabia-se que não era tóxico pro nanismo, né?E ali pra síndrome de Rett, então a gente passou por esse estágio, OK, né? E aí depois foi o teste de eficácia, né? Ou seja, ele realmente melhora a condição, acontece aquilo que você previu nos ensaios em laboratórios, né, que a gente chama de pré-clínicos, né? E foi então todo esse processo, né, leva-se mais ou menos, dependendo do tipo de medicamento, o tipo de de tratamento, né, de 10 a 15 anos, né,ou seja, o desenvolvimento atual da ciência chegará pras pessoas para uso, algum uso, se tudo der certo, né, porque cai muita, muita ideia no meio do caminho daqui 15 anos. Exatamente. É, leva-se 15 anos eessa foi uma das coisas que mais me assustou quando eu conheci o Alysson, o tempo que demorava.

23:10

O tempo que demorava, né? É. Então, hoje os tratamentos que a gente tem hoje em laboratório, né? se seguir o caminho tradicional, porque também a gente tá mudando isso, esse caminho tradicional a formas de melhorar, né? E a gente foi aprendendo ao fazer isso, né?.de 10 a 15 anos. Exatamente.e isso isso explica um pouco o uso dessa plataforma, né? né? Então, como é que, em que estágio ela tá hoje? Desenvolvimento, porque imagino que de 2007 até hoje essa tecnologia dos minicérebros já se desenvolveu bastante. Então, conta um pouco dessa evolução, até onde você já chegou e quais são os próximos milestones,tá?Em termos de desafio, né, desenvolvimento dessa tecnologia,tá? H, bom, a gente começou ali de uma forma até rudimentar, né, que foi a criação de neurônios individualizados ou redes neurais em duas dimensões, que era a tecnologia que a gente tinha na época, né? como o passar do tempo, né, fomos aprendendo que essas células elas podem ser crescidas ou cultivadas em três dimensões. E ao fazer isso, a gente tem um segundo ganho, né, que é o ganho que ao colocá-las em três dimensões, a gente percebeu, né, que elas se autoorganizam e formam o tecido, né, que é algo que a gente não esperava.

24:26

A gente achava que nós teríamos que montar o tecido cerebral, né? Mas descobrimos que as células estão programadas geneticamente para formar esse tecido cerebral.Ou seja, quando você dá a direção para ela se transformar num tecido cerebral, ela já sabe o caminho que ela vai seguir.Exatamente. Já sabe o caminho que ela vai seguir e se autotransforma ali, né? Com todas a a a anatomia correta, né? Não é perfeita, mas é bem próximo ao cérebro fetal, né? começa ali com o cérebro fetal e vai amadurecendo. Então, a gente teve esse avanço, né, que é o crescimento em três dimensões. Aprendemos como melhorar esse tecido, deixar esse tecido ah mais semelhante ao cérebro humano. Em 2019, a gente teve um grande milestone, um grande avanço, que foi a gente aprendeu como ah fazer esse cérebro funcionar, né? Ou seja, criar circuitos que são muito semelhantes ao que acontece no cérebro humano, que é era uma emedir isso, né? E conseguir medire conseguir medir isso e comparar com o cérebro humano,fazer um eletroencefalograma de um minicérebro e ver sinapses lá, né?

25:34

Isso é fantástico. É que isso que era outra outro outra forma outro estágio que todo mundo era cético. Ah, tá. O cara consegue fazer neurônio ali e tal, até a gente até acredita nisso. Mas eles não funcionam,mas eles não funcionam. Mas esses neurônios não são reais, né? Eles não não não funcionam igual o cérebro humano.E ali em 2019 a gente mostra que não não só a gente consegue fazer neurônio reprogramado de uma pessoa, mas eles passam a a a fazer um circuito, né, semelhante ao do cérebro humano.E como e como é que vocês testaram? Porque eu lembro que uma vez eu fui lá, vocês estavam colocando os minicérebros numas placas testando os sinais. Como é que é, como é que é essa tecnologia, né?Pois é, né? Basicamente a gente queria comparar, né, esses circuitos neurais com circuitos neurais do cérebro humano. E como eu mencionei, né, a única forma de medir no cérebro humano é através de uma forma não invasiva, né, e uma delas é um eg, um eletroencefalograma, que nada mais é você coloca eletrodos aqui na na caixa craniana e, né, a atividade cerebral é tão forte que ela passa pelo osso e você detecta pelos eletrodos. Então a gente fez a mesma coisa com o minicérebro. Colocamos esses minicérebros, eu tô chamando aqui de uma forma leiga, né,em cima ali e dos eletrodos, né? Então não tem o osso, né, mas ele captura a atividade elétrica. Aí a gente consegue ter uma comparação mais real, né, da atividade gerada em laboratório e da atividade do cérebro humano real.

26:58

E voltando lá pr pra história da NASA, então até que qual idade você consegue desenvolver o o cérebro em laboratório?Então essa tecnologia é tão legal. né? Porque a recapitulação do desenvolvimento neural acontece desde o desde o início da gestação.. Então, o timing, né, ou o, o tempo de especialização, de amadurecimento desse tecido, segue o desenvolvimento humano. Então, se eu mantenho esse tecido neural por um mês, ele é equivalente ao cérebro fetal de um mês. Se eu mantenho ele por 9 meses, é o equivalente a um ahã a um bebê ali, a um feto que tá prestes a nascer, né? Se eu mantenho ele por um ano, é equivalente ao cérebro de um ano.E ele é não vascularizado, né? Ele não é vascularizado. Daíisso tem algum prejuízo paraTem tem é ele não é vascularizado. Então a os nutrientes chegam através de difusão. Essa difusão ah tem um limite do tecido, né? Então é por isso que que ele não cresce mais, é por isso que ele tem um limite de tamanho, né?

28:02

Entendi. E aí a aí para pro espaço tem a ver com essa questão do da aceleração do envelhecimento das células. É isso.É. É. Então, como a gente tem que como ele segue o desenvolvimento humano, né, manter essas estruturas em laboratório começa a não ficar tão prático, né? Porque, por exemplo, se eu quero estudar o cérebro, de um autista de 10 anos, eu teria que envelhecer o tecido neural dele em 10 anos, por 10 anos, né? E aí tem um outro problema, aquele autista que tem 10 anos vai ter 20 depois que eu envelhecer o tecido, não tem o termo de comparação.É, eu nunca consigo passar na frente do tempo da pessoa para prever como aquela pessoa vai se comportar, né? E isso aconteceu de uma forma prática, né? Então, o, não sei se os ouvintes sabem, mas eu tenho um filho autista, né? O Ivan. E o Ivan, né, quando ele teve lá os seus 7, 9 anos, né, ele começou a ter epilepsia, né, algo que a gente não havia previsto ali no na trajetória dele, né?

29:04

Ah, e eu já tinhaos minicérebros dele criados em laboratórios e não tinha menor indício de que haveria ali, né, uma uma convulsão, uma epilepsia, né? E isso me fez refletir, nossa, o meu modelo não é previsível, eu não consigo prever o que vai acontecer com IV. não consigo antecipar, né? E me culpei por isso. Falei: "Nossa, esse modelo realmente não é tão bom". Mas foi aí que eu tive esse insight. Eu falei: "Olha, na verdade não é que o modelo não é bom, você simplesmente não conseguiu esperar esse modelo 10 anos, né, para acontecer. E mesmo que tivesse esperado, ele já teria evoluído, né? O o indivíduo já estaria lá na frente.E foi aí que eu comecei a buscar formas de acelerar o desenvolvimento neural em laboratório e me deparei com uma literatura da própria NASA, né, mostrando que as células dos astronautas depois de uma viagem espacial, quando voltavam à Terra, né, apresentavam sinais de um envelhecimento precoce, né?

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E eu achei isso muito interessante. Eu falei: "Nossa, se realmente uma viagem ao espaço acelera, né, o tempo, né, eu poderia usar isso pros meus minicérebros, para acelerar o envelhecimento deles, né? Então foi aí que eu comecei essa conversa com a NASA, que no começo a própria NASA foi muito cética,reticente,reticente atée mas depois acabou se transformando nessa colaboração maravilhosa que a gente tem ao longo dos anos. Olá, pessoal. Alysson Muotri aqui. A gente tá no segunda tentativa, na terceira, na verdade, tentativa de fazer o lançamento dos minicérebros para estação espacial. Eu tenho aqui e alguns dos minicérebros que foram colocados dentro do Space Tangle Cube e e eles estão muito saudáveis. É uma pequena incubadora que a gente criou para fazer o controle em terra.

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E os minicérebros eles ficam aqui dentro desses tubos. Cada um deles tem mais ou menos meio milhão de células, meio milhões de neurônios e e o que foi pra estação espacial são 1000 minicérebros, então acabou capendo muito mais do que a gente inicialmente conseguiria colocar. Então agora a gente tá no no countdown final, falta uma hora pro lançamento, estamos só esperando o tempo ajudar. E e por que que chegou-se ao ponto dessa dessa experiência com a NASA de você ter que ir junto com a com a nave espacial? Qual que é o ponto que vocês chegaram nesse desenvolvimento desses testes? Porque você já mandou vários lotes?Exato. É, né?Já foram vários, né? Quantas vezes já subiu? É SpaceX que vai, né?É, a gente tá, a gente faz isso tudo.

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Em colaboração com a SpaceX, já fizemos nove missões, né? Então, foram nove missões. Aliás, daqui a pouco, ó, não sei que horário que é,tá subindo.São 10. Aqui a gente tá tem um, um experimento passando pelas nossas cabeças agora, né?Ah, é.Tá lá.Tá lá.Do nono lote.Do nono lote, exatamente. O último experimento que a gente mandou ainda tá na estação espacial. Eles estão, eles estão ficando lá por mes, por 6 meses. Desculpa.E quanto tempo envelhece nesses seis meses?Cada mês no espaço é o equivalente a 10 anos em terra.Nossa. É,esse de seis meses vai ser o maior, o mais longo experimento,é o mais longo experimento que a gente vai tá puxando realmente o limiteda tecnologia, né?Mas deixa eu voltar a tua pergunta. Como é que a gente faz isso? A gente faz isso através de uma plataforma autônoma, que nada mais é do que um robozinho dentro de um uma caixa, que é um tamanho de uma caixa de sapato. Esse robozinho que tá lá dentro, ele mantém esses minicérebros vivos, né? Porque esses minicérebros estão sempre precisando,ele replica o ambiente do do laboratório que você tem aqui lá.

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É, replica o ambiente, mantém as as a a condição de cultura ideal, temperatura ideal, umidade, níveis de oxigênio e CO2, né? Exatamente como se fosse dentro do corpo humano pro cérebro se desenvolver, né? Então é um é um útero autônomo, tá?E temos câmeras ali e tal. Então a única coisa que o astronauta tem que fazer é pegar essa caixa que ele recebe da SpaceX e botar na tomada, né? né? Uma vez que ele coloca na tomada, eu tenho acesso a a essa plataforma, consigo controlar ali, né, do meu computador o que acontece nesse útero autônomo, né? E hã e a gente fez então nove experimentos, são nove experimentos usando essa caixa autônoma, né, e que nos ajudaram a interpretar, né, o tempo de envelhecimento, o que acontece com os minicérebros e até já começar a fazer alguns testes com doenças neurológicas, né? Hã, agora a gente tá querendo, ir mais além, a gente tá querendo entender os mecanismos pelo qual o a exposição ao espaço envelhece e estamos querendo usar, né, num projeto que eu acho que é fascinante, usar a biodiversidade da Amazônia.

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.né, como forma de neuroproteção, né? Ah, esses experimentos eu não consigo mais fazer nessa plataforma autônoma. Eu preciso de novo de uma mão de um cientista para fazer isso. Inicialmente a gente tentou treinar um astronauta, né? E e a NASA mandou dois astronautas, né? Que são os melhores astronautas ali com mãos para pro tipo de experimento que a gente queria fazer. E ah, e aí depois a gente percebeu que que não daria, né? Esses dois astronautas que são foram astronautas da NASA, claro, não dá. o nível de sofisticação experimental que você precisa é muito além do tempo que a gente tem, né, para treinar, para aprender a fazer isso, né?Então, foi descartado a possibilidade de treinar um astronauta para executar o nosso experimento e começou a surgir a ideia de treinar cientistas para serem astronautas, né?

34:40

Então, todo aquele anos de conhecimento que você tem, né, para ensinar um cientista, né, é mais fácil treinar ele para virar um astronauta. O tempo é muito menor para você virar um astronauta, né? Óbvio, não estamos falando de um astronauta da NASA, né? A gente tá falando do que a gente chama de um mission specialist, que é alguém que vai lá para executar um experimento específico,vai pilotar a nave paraExatamente. É, então é um é um tipo diferente de astronauta, né? e que a gente tá agora criando essa demanda, que era uma demanda também que não existia, né? então estamos criando ali a primeira corrorte de cientistas para serem astronautas.E você é um deles ou você já foi?Não, eu eu me candidacei a ser o primeiro da turma.Que legal, que legal. E tem uma previsão de dataa gente era para acontecer, né?

35:29

Depende muito do ambiente político também, é uma questão,é em 2005, 2026, né? né? E a gente tá passando por um momento político nos Estados Unidos, onde a ciência agora não tá muito propícia para que isso aconteça. O próprio budget da NASA foi cortado, a NASA ficou sem um CEO, um presidente até agora a pouco, né?Então as prioridades estão sendo revistas, tá tudo, né, sendo discutido novamente. A gente não tem previsão de uma próxima missão tripulada pra estação espacial, então não conseguimos planejar nada, né? Então foi foi colocada uma pausa aí nesse hã nesse momento, né? a gente espera recapitular isso daí em breve.Boa. e aí voltando, né, na questão do do desenvolvimento da plataforma, que o você já descobriu uma série de coisas, né, inclusive replicando o cérebro do homem de neandertal, né, conta um pouco que usos você já deu para isso e e recentemente também tem uma questão relacionada ao chumbo, né, não é isso?

36:24

Hã,conta um pouco,tem oda flexibilidade dessa plataforma,essa plataforma, né, apesar de eu intencionalmente tenha a criado, né, para estudar a evolução do cérebro humano, né, ela acabou derivando para outras aplicações. Então, a gente falou aqui da aplicação de modelagem de doenças genéticas, doenças neurológicas genéticas, né? Ah, estudos da evolução que a gente tem feito, né? se questionar o que, de novo, né? Volta aquela pergunta ancestral, né? O que nos faz humanos, né? Porque que somos únicos nesse planeta, né? Comparado com os outros animais, nós temos uma capacidade de adaptação, tecnologia e artística muito diferente de qualquer outra espécie. Por quê? Por que que nós somos assim, né? Então, a gente olha para essa questão com uma perspectiva, paleogenômica, ou seja, a ideia seria que existem genes, né, que nós temos e que nenhum nenhuma outra espécie tem, né, ou variantes genéticas que são unicamente humanas. E nós descobrimos que existem 61 genes que são unicamente humanas, né? Ou seja, são genes, são variantes genéticos que nós temos e não estão presentes nem nos ancestrais, que são a seriam a espécie mais próxima de nós.

37:49

E como é que se explica a teoria da evolução a partir daí, né?Pois é, né? Ah, pra gente ter ah variantes genéticas unicamente humanas, essas variantes genéticas têm que nos dar uma vantagem pra nossa espécie,né? Então, a gente parte do princípio que essas variantes são muito importantes, né? Apesar de serem muito poucas, vocês tm queseriam variantes de novo, assim, elas teriam seriam mutaçõescomo elas surgiram, né? Isso que você quer dizer, né?Isso.Se no ancestral não tinha e tem na gente, o que aconteceu, né?É, então, a a genética funciona criando mutações a todo momento. Então, todos nós temos mutações, todas as espécies têm mutações, né? Então, a teoria é que na nossa espécie houvem algumas houveram algumas mutações, né? E essas mutações, por trazerem uma vantagem adaptativa muito grande pra nossa espécie,estabeleceram,se estabeleceram no pool genético da humanidade, né? Então esse é o princípio da evolução. E a gente partiu desse princípio, né, para descobrir se algumas dessas variantes, né, tenha sido importante. E a gente olhou para essa lista de 61 genes e descobriu alguns deles que são realmente genes muito importantes, né? Então, o primeiro que a gente testou foi um G chamado Nova 1 e é um G importante durante os estágios iniciais da formação do cérebro. Ora, quando eu olhei para aquele gênio, eu falei: "Nós temos a plataforma ideal, porque nós temos a plataforma de desenvolvimento neural". Então, o que foi feito nesse caso, né, foi a troca da variante genética de um organoide, de um minicérebro humano, né, pela variante genética do neandertal. Então agora a gente tem um minicérebro se desenvolvendo, carregando esse gem neandertal.

39:31

Você você neandertalizou um minicérebro.Isso é, né? Então por quê? Eu não tenho acesso à células do neandertal, então eu não conseguiria fazer um minicérebro neandertal, mas eu consigo modificar geneticamente a célula de humano moderno, né? para que ele expresse ali uma versão daquele gen só apresente em outras espécies, inclusive os neandertais. Entendi.E o primeiro gem foi esse Nova um. E o que aconteceu, né, foi impressionante. Foi um desses resultados que a gente fica de boca aberta, né? Ele acelerou o desenvolvimento neural, né? Então aquilo que eu expliquei para você que o a gente leva um tempo de amadurecimento do tecido neural, quando a gente colocou a versão neandertal, pum, aconteceu ali, né? O que era para para acontecer em diversos anos. a gente viu que aconteceu, né, em ah em alguns meses, né, então houve um aceleramento do desenvolvimento.

40:23

Mas o que que isso significaria?Pois é, o que a gente no começo ficou meio meio incrédulo assim, né? Nossa, né? Acelerou tão rápido assim o desenvolvimento. Mas daí a gente percebeu uma outra coisa, a gente falou assim: "Então vamos acompanhar, né, até o humano chegar nesse nível de amadurecimento". E o que acontece foi o seguinte, a versão neandertalizada, carregando o gên do neandertal, ela amadurece muito rápido e depois ela é estagna, né? E e a versão humana ela demora, demora, demora, chega no mesmo nível e continua.E a gente tá falando de nível de complexidade neural, de redes neuradas, tá?Então é como se ele evoluísse rápido e e para a evolução.É,e o nosso demora mais para evoluir.Exatamente. É. E qual que é a vantagem ou desvantagem disso? Bom, eu consigo ver uma vantagem de você ter um amadurecimento mais rápido, né? Se você tá ali, né, num num ambiente ahhostil,primitivo, né, num ambiente primitivo, ah, é melhor você se amadurecer rápido para você ir atrás de comida, para você se defender, né, de animais selvagens, tal. Então, quando você olha para um bebê chipanzé, o bebê chipanzé ele é muito mais esperto do que um bebê humano, né? O bebê humano nasce ainda tá lá, se ainda amamentado, bebê lá,morre, né? O bebê chipanzé não, ele já tá pulando em árvore, já tá brincando, já tá descobrindo, imitando como é que faz algumas coisas, tal, mas ele atinge uma limitação, né? E essa limitação, quando ele f chega na fase adulta, ele não consegue mais continuar esse aprendizado, ele ele tem uma uma estagnação. E o bebê humano demora muito para chegar no nível do chipanzé, mas depois a gente evolui e continue e

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Continua o nosso desenvolvimento, né? Então essa versão, o que que a gente interpreta que essa versão do Nova 1, né, ele chegou lá, né, ele e foi uma mutação que nós tivemos e desacelerou o nosso desenvolvimento por alguma razão, que eu já te conto qual que é, né? Ah, valeu a pena ter um bebê que demorava a amadurecer, né? E valeu tanto a pena, né, que a gente manteve essa variante genética no pulo genético. Isso nos trouxe uma grande vantagem em relação ao neandertal e às outras espécies também. a pesquisa mais recente, né, que é justamente respondendo isso, por ou como que essa variante genética foi selecionada, né, nós publicamos esse ano, né, mostrando que os nossos ancestrais desde 2 milhões de anos atrás, né, estão contaminados por chumbo. Chumbo é um metal pesado, presente no no universo ancestral, inclusive hoje em dia, né? E nós sabemos muito bem que, né, a contaminação por chumbo causa problemas neurológicos.

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Inclusive em humanos modernos. E o que a gente descobriu foi que quem as espécies que t a versão ancestral do Nova, né, são muito mais suscetíveis ao chumbo, ao ponto de perder a capacidade de linguagem verbal. Então os neandertais e outros hã hominídios, né, austreloptecos, outros hominídios, eles possivelmente também foram contaminados por chumbo e perdiam a capacidade de seguir em frente com uma linguagem verbal complexa como a nossa,interação social e assim. E tudo isso influencia interação social, né, capacidade de abstração e, mais importante, capacidade de prever o futuro. Então, coloca-se nessa situação aonde você tem humanos modernos que conseguem falar, eles conseguem criar uma estratégia de caça, de fogo, de moradia, né, entre o grupo deles, ao passo que os neandertais devem ter uma comunicação muito mais rudimentar do que a nossa. Então, competitivamente a gente tava em vantagem. Então essa variante genética não só trouxe o desaceleramento a trazer uma complexidade maior do humano, mas trouxe também a linguagem verbal complexa que a gente usa, estamos usando agora, é o nosso superper humano.

44:31

Ou seja, essa resistência ao chumbo, né, uma uma maior resistência trouxe a possibilidade da gente desenvolver linguagem que nenhum outro animal conseguiu até hoje, né?É, exatamente. É. E como é que foi logo no início você já começou a estudar o autismo, porque eu sei que o autismo na sua vida ele tem um uma trajetória bem bem única, né? Como é que foi essa porque você contou a tua tua trajetória falando da síndrome de hat, teu interesse pelo desenvolvimento do entender quem somos nós, né?e eu imagino que o autismo não estava na sua vida neste momento, né? Conta um pouco como é quequando isso apareceu e conta as consequências, né? Eu citei da Andreia aqui, você falou do Ivan.Conta um poucocomo é que o autismo entrou na suaEntão, o grande objetivo era entender o cérebro humano. Então, fui atrás de buscar estudos para entender a evolução do cérebro humano, né? E uma vez que eu tinha o modelo, né? de de criar esses neurônios, esse tecido neural, né?

45:31

Ah, eu como geneticista, né? A gente sempre busca o mutante, né? E o mutante é aquele que foge do normal, né? Do típico, né? E no caso da evolução humana, qual que foi a grande vantagem? A grande vantagem, uma das grandes vantagens que a gente tem é a evolução do do córtex, né, frontal, que nos traz não só a capacidade cognitiva, mas a capacidade social. A gente se socializa em grandes grupos, formamos cidades, confiamos no sistema, né? Isso permite com que a gente avance a nossa espécie. Ah, você é impossível fazer isso com o grupo de chipanzé..Por exemplo, né? Então, se você tem um grupo de chipanzé aqui, coloca umas bananas aqui, eles vão se matar para ver quem pega a banana, né? Nós humanos vamos tentar coordenar, né? Como dividir isso daí para todo mundo se dar melhor, né? Então, a capacidade social humana é muito única. Então, eu buscava formas mutantes de estudar o cérebro social humano. E foi aí que eu me dediquei ao autismo, né, como uma forma menos social do cérebro humano. E a síndrome de Williams, né, que é uma síndrome também genética que causa uma hipersociabilidade, né, ah, do cérebro humano. Então, eu comecei a trabalhar nessas duas frentes.

46:50

Esses seriam a as formas mutantes, né, do cérebro neurotípico humano.. então não tinha o autismo, ele era apenas uma ferramenta de trabalho, um instrumento científico, né?Científico.Mas logo depois, né, que a gente começou a a fazer esse trabalho com a síndrome de Rett e tal, eu percebi do impacto translacional, impacto médico, né, que esse trabalho poderia ter ao ser contactado por diversas famílias, querendo entender mais como é que esse esse tratamento poderia, né, virar realidade ali pras famílias, tal. aí eu gostaria de dar um depoimento aqui sobre Dr. Alysson. normalmente as pessoas quando se tornam conhecidas elas se tornam cada vez mais inacessíveis, né? Ou seja, um ser humano comum manda um e-mail, normalmente não vem resposta nenhuma. Dr. Alysson Moe de atender a todas as pessoas que entram em contato com ele. Não interessa por qual canal, digital, telefone, visita. E eu acho que isso se transforma numa grande vantagem, né? porque você passa a ter acesso, né, a e conhecimento sobre várias fontes de informação. Isso, não sei qual que é a razão, né, além do da própria forma de ser, né, eu acho que também te dá uma vantagem, mas eu tô falando isso como um elogio porque toda vez que eu vejo issoe atende rápido.

48:11

E atende rápido, ou seja, você manda uma pergunta,o número de pessoas que me falam assim: "Ah, cria o contato do Muotri e tal, não sei o que". Eu falo: "Ó, eu posso passar o e-mail dele?" A pessoa fica um pouco incrédula, n?É, não vou nem perguntar, né? Eu falo assim, ó, mas manda que ele responde. E aí assim, eu recebo muito feedback assim, ele me respondeu em 10 minutos,não? E respondeu mesmo, não é? Sim, vou falar. É, leu tua mensagem,pensou sobre o assunto, escreveu e deu uma resposta qualificada, né? É, é um pouco de egoísmo meu também, né? Porque quando eu recebo esses e-mails, em geral vem alguma questão interessante, muitas que eu às vezes não havia pensado. Ah, às vezes uma um um uma pergunta até específica, né, de uma variante genética, alguma coisa assim, né? Então, me faz pensar também. Então, tem aí o meu próprio egoísmo.

49:01

É, mas eu te cortei, você tava falando, então, muitas famílias começaram a chegar até você.É. Eu percebi o impacto translacional na saúde que eu poderia ter, né? Aí comecei a pensar, olha, talvez eu devesse me dedicar também, né, a esse aspecto mais médico, né, não só pensar na evolução do cérebro, tal, mas ah, um aspecto mais médico que hoje é a grande parte do laboratório é a medicina, né?E e numa dessas comunicações, né, foi aí que eu conheci a Andreia, né, a Andreia é minha atual esposa, que tinha um filho autista, que é o Ivan, né,que seu filho,que hoje é meu filho, né, e aí a gente começou essa família. Então essa família começou através de uma dessas mensagens, né? Ah, e numa das minhas vindas ao Brasil, onde a gente se conheceu pessoalmente, né? Ah, tá intermediado pelo Paiva. O Paiva é meio culpido aqui também, né? Fez parte da história, né?

49:52

Exato.Então, hoje em dia, convivendo com André, com o Ivan, né? A parte médica, de novo, de saúde, né? Tá muito presente. Então, eu observo, né, as dificuldades que ele tem dele, de outras famílias, né, e percebo da importância desse trabalho. É. e claramente deixa de ser um interesse científico apenas e passa a ser um propósito de vida também. a aceleração o desenvolvimento. E eu queria que você contasse um pouco e aí Paiva também abrindo a a palavra para você, como é você cientista que sabe o tempo da ciência, ter uma motivação pessoal neste nível, né? Como é que é isso dentro de você, né? Como é que funciona isso aí dentro?É, é, é, é, é uma loucura, né? Porque eu como pai eu sinto, né, a frustração do tempo da ciência, né, como cientista, eu sei que a gente não quer, né, buscar nenhum atalho que se que possa vir a ser detrimental. A gente entende que a ciência ela segue, né, passos de validação e revalidação, né?

50:56

Por isso que às vezes o ceticismo é importante, né, que te aponta, olha, pode, você pode est errado, vamos fazer esse novo experimento para tentar descartar a hipótese de um artefato científico, alguma coisa, né, que possa mudar sua interpretação. Então, é sempre assim, é um avanço, né, e um passo para trás. Avança dois passos, dá um para trás. Então isso leva tempo, né? Mas é um tempo necessário, é o tempo que a gente tem para se convencer de que o que a gente tá fazendo, né, é importante, não é tóxico. Não adianta ter uma um medicamento, né, que funciona excepcionalmente ali num minicérebro e é impossível, né, seja porque seja tóxico no corpo humano, seja porque seja muito caro, né? Isso também é uma coisa que me preocupa e a acessibilidade da medicina, né? Não quero desenvolver um medicamento que seja impossível, né? Hoje em dia a gente tem medicamentos e tratamentos de 1 milhão de dólares, né? eu tô fora, não, não é isso que eu quero, né? Eu quero uma coisa acessível, né? E hã, então fez com que, né, eu, do meu lado, pai, buscasse sempre olhar para formas de como é que eu posso acelerar isso e dá e dá. Eu acho que simplesmente assim a gente tentar formas alternativas, né, com toda a segurança científica, né, para, encurtar ali esse tempo. Então, acho que dá para fazer isso. Acho que hoje em dia, né, a gente já não tem mais esses 10, 15 anos, a gente já tá reduzindo isso já,tá? E já nasceram algumas soluções, né?

52:23

Tiveram alguns, algumas evoluções a partir da tua plataforma, né? Quais são as que já tiveram e as mais próximas de acontecer agora? Você possa comentar?Sim. O primeiro medicamento foi mesmo, né, o que hoje em dia está aprovado, né, e tá até comercializado, né, que foi lá a molécula do IGF1, né, que levou-se ali e praticamente 10 anos, né, levou-se 12, mas v vamos contar dois de COVID ali que tudo parou, né? Então foram e efetivamente 10 anos desde a descoberta até a aprovação do medicamento, né? E ah e hoje em dia a gente consegue fazer isso num tempo muito mais curto, né? Então, vou dar o exemplo da gente usou, né, também a síndrome de Rett para testar o aceleramento no espaço. Descobrimos uma droga, né, uma nova via molecular que é passível de uma medicação farmacológica, né, e já entramos em ensaio clínico. Isso daí levou muito menos tempo, já levou 5 anos, né, pra gente conseguir fazer o ensaio clínico. Tá sendo testado agora.

53:26

Uma outra síndrome do autismo que a gente trabalhou, a síndrome de Pitt Hopkins, né? Fizemos as descobertas ah em 2020, 2022, né? E hoje em dia já acabamos de obter aí algumas semanas atrás,esse é o mais recente, aprovação e do FDA, né, que seria Anvisa ali nos Estados Unidos para fazer os ensaios clínicos. É uma terapia gênica, né, pra síndrome de Pitt Hopkins. o em menos de 10 anos, né? Bom, eu comentei que você poderia citar também, porque quem não sabe, Francisco Paiva Júnior, fundador da revista Autismo. Mostra aí, faz um jabá da revista autismo. fundador da revista autismo. Também tem um filho, pai do Giovani. Filho autista, na verdade dois, né? Um filho autista e uma filha que tem chulé. Isso. Giovani tem autismo nível um de suporte e a Samanta tem chulé nível três.

54:17

Gravíssimo.Gravíssimo. como é que foi a tua a tua descoberta aí do do mundo do autismo? Conta um pouco da tua história.Bom, eu não eu não sabia nada de autismo, né? eu acho que a única lembrança que eu tinha, né, conceitualmente era um comercial da Ama com o Antônio Fagundes e uma criança se balançando, fazendo aquele famoso rocking, né, balançando o tronco e fazendo flapping com a mão. Era só isso. E eu associava, logicamente o autismo a uma deficiência intelectual e mais nada, não sabia mais nada disso. É, mas no dia 26 de março de 2009, né, e me marcou tanto que eu lembro a data, é, eu conversando com conhecido meu, eu falei assim: "Poxa, meu filho tá com 1 ano e 11 meses e não fala".

55:05

Mas parece que não é só fala, ele tá com fome, a mamadeira tá ali pronta em cima da da pia, ele tenta escalar a pia e não consegue, chora eu tô do lado e nem para dar um cutucão em mim, apontar. Então ele não nos comunica nem não verbalmente. E aí esse meu conhecido falou assim: "Você já leu alguma coisa sobre autismo?" E aí, né? Deu aquela parada que na realidade deve ter sido 2 segundos na minha cabeça. Eu fiquei umas duas horas, talvez ali travado,preso no tempo.É, preso no tempo. E aí ele começou a me falar: "Ah, sabia que autista não olha nos olhos? se isola das outras crianças?" e me falou três ou quatro características. E nessa hora, primeiro, eu acho que eu entrei num estado de negação de alguns minutos. não é possível, não deve ser, que é muito comum, mas varia de pessoa por pessoa, né? E até que eu comecei a passar um filme na minha cabeça, né? Poxa, o Giovani não olha nos olhos.

56:08

Como que isso pode ser uma características, uma característica que pode apontar um transtorno, né? Nunca imaginei uma coisa dessa. E aí comecei a me aprofundar no tema. Como eu sou jornalista, para mim não foi difícil encontrar as fontes confiáveis, né? E e aí comecei a a ver o que eu podia fazer pelo meu filho, né? E aí quando tava o tratamento dele nos eixos, né? Então eu cheguei, fui fui no num num no neuropediatra, procurei uma psicóloga especialista em análise do comportamento aplicada, ABA, que é a ciência que mais tem mais tem evidência científica de resultado no tratamento de autismo, tal. Quando tava tudo nos eixos, eu falei: "E os outros? E os outros, as outras famílias? Vou escrever um livro".

57:00

Escrevi o livro Autismo, não espere, aja logo. Escrevi em 2009, mas consegui lançar só em 2012. Mas quando eu terminei de escrever e fui atrás de editora, tal, eu pensei: "Quem mais precisa de informação não pode comprar um livro no Brasil. Eu vou lançar uma revista de graça, gratuita, impressa e digital."Acho que vai ser a primeira revista do estado de São Paulo,né?Que ano era isso?2010. 2010,abril de 2010 e comecei a pesquisar e vi que não tinha uma revista a respeito de autismo no mundo em língua portuguesa, né? Falei: "Caramba, que responsabilidade". E a gente lançou o número zero da revista Autismo. Estamos aqui no número 30, número 31, saindo do forno já nos próximos dias. E e criamos a primeira revista a respeito de autismo, né? com esse tema gratuita, impressa e digital. E olha, e olha só que que visionário que eu fui. Usei QR code em 2010 para poder linkar o conteúdo online com offline,nem celular, tinha nem celular para ler o QRC naeu tinha que explicar o que era QR code e explicar que tinha que baixar um aplicativo para lê-lo, porque ele só era famoso no Japão.Hoje tá aí, ó. Hoje tá aí.

58:23

Bom, e aí assim, explicando um pouco, né, do como é que a gente se conheceu, tenho um grande amigo, né, Marco Antônio Inocente, Ana Paula inocente, tiveram uma filha com síndrome de Rett, acompanhei toda a trajetória, né, desde a descoberta e etc. E num dia, teve um dia, o Marco me liga e fala: "Já, vem aqui em casa que eu queria bater um papo com você". E aí ele falando um pouco sobre a busca dele por encontrar soluções de saúde paraa filha, ele me disse: "Olha, eu tô em contato com um cientista espetacular, fica lá na Universidade da Califórnia, a gente tá fazendo, desenvolvendo um projeto, a gente quer tua ajuda para pensar o que que a gente pode fazer." Naquele momento eu falei: "Bom, porque eu, né?" Ele falou: "Porque a única pessoa que eu conheço que vai conseguir botar isso no papel é você".

59:12

Falei: "Tá bom, vamos ajudar, né?" E naquele momento, acho que foi em 2014, se não me engano, já vamos fazer 11 anos,a gente começou a desenvolver, começou com uma vontade de ter algum modelo de negócio e a gente não sabia o que fazer, né? Então a primeira coisa que eu fiz foi uma rodada de entrevistas com cientistas, me conta essa tecnologia aí para eu entender que que dá para fazer com isso, né? E a primeira ideia, não era uma boa ideia, mas foi a primeira ideia, era fazer uma um banco de dados de células, um banco de células tronco pluripotentes, né, que era um, era uma ideia puxada da ideia do banco de de sangue, né, que as pessoas pegavam o sangue das células do cordão bilical quando nascia. Bom, então vamos fazer um modelo de negócio assim, rapidamente. A gente chegou à conclusão que era uma péssima ideia.

1:00:04

Na verdade, a ideia era boa, é só que a gente tava muito à frente ainda. Hoje em dia tem para aquele momento, né?A gente tava realmente muito à frente.Ela só não era viável naquele momento, né?É. É.E aí, a segunda ideia foi, bom, então, eles estavam contando sobre essa questão do desenvolvimento dos testes genéticos. Eu acho que é interessante porque grande parte da audiência não conhece tão bem o autismo assim. eu me lembro que em 2015 a gente fala falava sobre a relação do autismo com a genética humana. E é importante entender que genética e hereditariedade são duas coisas completamente diferentes. A genética é da onde saímos todos os nossos códigos, mas nem tudo que é genético é hereditário, né? Você tem mutações que acontecem no próprio indivíduo.

1:00:52

Então, nem sempre as o a tua genética é herdada do do seu pai e da sua mãe, né? tem grande parte que é, mas tem as mut, se eu falar algumas besteiras, por favor, vocês me corrigem. tem algumas mutações de novo, né, que acontecem no próprio indivíduo. e a gente tava estudando e falando sobre a a relação do autismo com a genética. E naquele momento eu lembro que a gente fazia a Graziela, fazendo palestras no em algumas universidades, vamos citar as universidades e as pessoas dizendo que grande besteira isso que vocês estão falando. Tem nada a ver uma coisa com a outra. E hoje quanto por cento da do autismo tem ligação com a genética?É, hoje o risco genético é de 97 a 99%, sendo 1 a 3% ambiental. E esse ambiental nós estamos falando do ambiente intrauterino, né? Só para ficar muito claro, né? A pessoa nascequase que absolutamentequase absolutamente o risco ée também o o autismo tem e uma infinidade de mutações genéticas relacionadas ao autismo, se não me engano, mais de 1000.

1:01:53

É, ele é multigênico, ele é aditivo, ele é multifatorial. né? Enfim, é bem complexo.É, quem quem tiver interesse em conhecer um pouco mais, acho que vale procurar aí na internet o modelo dos copos, né, que explica um pouco melhoressa relação dos genes com o autismo. E aí conheci Dr. Alysson Muotri quando ele começou a me contar as coisas que ele fazia no laboratório, que são essas que a gente acabou de ouvir,as peripécias. A minha cabeça parece aquela do emoji que o cérebro explode assim, eu falo:"Que loucura isso, como é que a célula, a célula volta para trás no tempo, né? Você imagina isso?Não, e você vê o e parece até um papo filosófico, né? Mas quanta relação tem com tempo e espaço com o que ele tá fazendo, né? ele voltou no tempo para poder conseguir uma célula tronco. Não satisfeito, ele voltou lá no homem neandertal, mas ele também acelera o tempo. E para acelerar o tempo, quanto mais ele entra no cérebro, mais ele sai do planeta.É, é uma viagem de tempo e espaço aí maluca, né? Tá certo. Não, e eu me lembro que quando a gente definiu qual era a missão datismo, né, que foi essa iniciativa em conjunto acabou dando origem a uma a uma empresa nova focada no autismo e nas síndromes relacionadas ao autismo, né, como síndrome de Rett, filhan McDonic e n outras síndromes, né? Tismoo, quando a gente começou a escrever, a gente colocou lá, né, um dos objetivos é acelerar esse tempo, né, de de da ciência que tá em em desenvolvimento, o quanto antes a gente puder trazer isso mais próximo do agora.

1:03:36

Parte disso é a nossa missão, né? Como é que a gente consegue acelerar o tempo? Que a gente sabe que não dá para acelerar o tempo, mas o aumentar o esforço dá, né?Não fala isso para ele. Não fala isso para ele.É, vai que ele tem uma ideia, né? E aí surgiu o Tismoo, né? Tismoo e define Tismoo aí, Pai.Olha, Tismoo ehoje, né? Hoje Tismoo é uma uma iniciativa de saúde digital, é uma startup de saúde digital que traz qualidade de vida, bem-estar, logicamente saúde para pessoas autistas e outras neurodivergências também, inclusive síndromes relacionadas ao espectro, de maneira que a gente consegue trazer acolhimento, suporte, orientação, prevenção, de doenças e melhoria no dia a dia prático mesmo dessas pessoas, né? Hoje uma empresa muito focada em saúde digital, que é que eu acho que é a grande tendência hoje, né, da saúde, da medicina.

1:04:37

E o importante é que o digital é o meioda relação, né? Ela é bastante humana,é uma ferramenta para os nossos profissionais, né, humanos, poderem tirar vantagem só para fazer mais e mais rápidoem quantidade. E Alysson, fala o quanto isso é importante, né? Então, acho que vale contar também um pouco da trajetória de Tismoo, né? Como é que surgiu essa ideia? Você tava lá antes que eu, né? Então, como é que surgiu a ideia? O que que motivou as as pessoas que estão lá a a se encontrarem? O que motiva até hoje, né? porque já fazem 11 anose é um projeto que passou por várias fases e a gente não para de continuar fazendo as mudanças necessárias para continuar evoluindo.Eu acho que a Tismoo, né, como empresa, ela segue bastante a definição do autismo, né, que é um alvo em movimento.

1:05:32

A definição de autismo, ela muda com o tempo, né? a gente já passou por diversas fases do autismo. Quem acompanha, estuda o autismo há muito tempo, né, já viu que a definição muda, né, e muda não só com o tempo, mas conforme a sociedade, conforme a as influências internas e externas que elas surgem, né? E Tismoo é assim também, a gente é flex e flexible, né, flexível, né, para se adaptar. Então, a gente tinha começado, né, com essa ideia e de fazer um banco de células tronco. Percebemos que como empresa não era uma boa ideia,tava muito à frente do tempo,muito à frente. Fomos pra parte genética, descobrimos que a gente estava muito à frente. Mas acho que nesse caminho, né, a gente foi percebendo o quão importante era o contato com as famílias, né? né? Então isso aí devo bastante ao Paiva, a Graciela, que começaram a estabelecer justamente, né? e por isso que eu gosto de responder os e-mailos, né? Que é ouvir as famílias, né? E ao ouvi-las, a gente começa a perceber, né, que surge ali umas questões de tratamento que parecem óbvias pra gente, mas muita gente não sabe, principalmente quem tá entrando nesse e-mail agora, né? conforme também o tempo foi passando, a gente foi vendo a evolução das seguradoras de saúde, né, ao hã ao lidar com o autismo, né, a definição de autismo muda, né, nos últimos anos. Ah, amplifica-se o espectro. Então, o autismo não é mais aquele de que quando eu comecei a estudar o autismo, que eram formas sindrômicas, severas, que a gente chama de autismo profundo, né? Ele

1:07:15

Começa a incorporar outros tipos de autismo, né? A gente divide os autismos hoje, nível 1, dois e três, em relação ao nível de dependência do indivíduo, né? Então, e as seguradoras acabam caindo nessa de ter que prover os serviços, né, para toda essa população, né? Então, a a fração de autistas aumenta muito, né? Ou antes a gente olhava por uma por uma ótica genética e via 1%, né? Hoje em dia não é mais só a ótica genética que define o autismo. Então ele é a parte comportamental, isso amplifica. Então a gente tá falando aí de um a cada 36, se não me engano, esse é o último número.1:31, né? É 1:31. É uma criança para cada 31 crianças nascidas são diagnosticadas, né? Porque tem os não diagnosticados também.

1:08:08

É. E esse número um para 31 é do CDC, né? Que que é mais ou menos aí o Ministério da Saúde lá do dos Estados Unidos, né? que faz uma pesquisa a cada 2 anos, para saber a prevalência de autismo. E eles eles vêm os critérios diagnósticos, segundo o DCM5, que é o manual de diagnósticos de questões mentais da sociedade Americana de Psiquiatria. e aí esse número hoje está em cada grupo de 31 crianças de 8 anos, uma é autista, considerando essas questões. E a gente teve um número importante no Brasil, né, que corroborou para isso, para para confirmar esse número americano, é que o censo 2022 do IBGE trouxe este ano os dadospela primeira vez,pela primeira vez de que nós temos no Brasil na faixa etária de 5 a 9 anos, que é a mesma faixa etária ali correspondente a essa estudo do CDC, a gente teve a seguinte prevalência: um em cada 38 tem diagnóstico de autismo. E aí você ainda tem os não diagnosticados.

1:09:15

Então a gente pode e a gente pode inferir que esse número de 1 para 31 tá muito próximo da realidade. Não tem nada que diga que nos Estados Unidos tenha mais autistas ou menos do que aqui, né? Então a gente consegue entender que poxa, de repente eu tenho uma uma faixa da população que apenas não tem o diagnóstico, mas é autista..Né? E aí eu tô falando da faixa etária de 5 a nove, que tem a maior, o maior número de diagnóstico em adultos é muito menor. Então a gente tem hoje 2.400.000 pessoas com diagnóstico de autismo no Brasil, segundo o censo do IBGE. Mas,ou seja, dois 2 milhões de famílias, né, impactadas. famílias. Exatamente. 2 milhões de famílias impactadas, quase 25 milhões e nós temos, segundo o número do CDC, aproxim aproximadamente entre 6 e 7 milhões de autistas no Brasil. Poxa, e qual por que essa diferença? são pessoas sem diagnóstico entre crianças e logicamente muito mais adultos porque viveram uma vida até hoje, né, sem saber que são autistas ou com um diagnóstico de deficiência intelectual ou outros diagnósticos, que é o que a gente encontra. Eu acho importante também dizer, que acho que é um dado que me surpreendeu e a grande maioria das pessoas não sabem, é de que o impacto pro universo da saúde, principalmente nos planos de saúde hoje, do autismo, é maior do que o câncer.

1:10:37

Em custos, é maior que o que o custo,émuito provavelmente pelo por conta do volume, né? É, e o impacto em custo dos planos de saúde é maior no autismo do que no câncer. Exatamente. Exatamente. E aí,e, portanto, se tornou uma um universo de preocupação.Exato. Exato. Até Tismoo atua muito nisso, né, de trazer o bem-estar, a prevenção, o acolhimento. A consequência disso é diminuir custo, é,né? Então,você diminui a intercorrência, você diminui o custo.Exatamente. Diminui a intercorrência, diminui o adoecimento. Você você faz com que a pessoa esteja mais engajada nas terapias, né? então isso tudo acaba sendo um benefício que que o Programa de Saúde Digital do Tismoo acaba trazendo, né? E ele surgiu por causa de estudos que mostram que autistas são mais vulneráveis.

1:11:27

Ou seja, é um protocolo, né? Podemos chamar assim, um protocolo que melhora a qualidadede vida, né? E a saúde dos indivíduos autistas e também familiares, né? Porque muita gente que convive com autismo também aumentae a gente cuida do cuidador, aliás, a capa dessa edição, né? Quem cuida de quem cuida, né? Tismoo pensa exatamente nisso que isso se reflete, né?Então, assim, essa melhoria gera um impacto positivo também no no nos planos de saúde que se interessaram justamente por isso, né? Porque eles ficam com a ponta da despesa, né? É. e como a gente tá desenvolvendo tecnologias para melhorar a qualidade de saúde e isso, por consequência diminui o nível de intercorrência e problemas de saúde, isso gera um benefício pros planos de saúde que passaram a se interessar pelo assunto dizer: "Opa, tem alguém aqui, alguém desenvolvendo uma solução que pode ser benéfica também pro sistema saúde brasileiro."Exatamente. E pensando que esse grupo é mais vulnerável, né? Adoece cinco vezes mais, vai a pronta socorre a internação cinco vezes mais que a população em geral. Então você vê que você tratar isso é uma forma de você investir e receber, né, um retorno sobre esse investimento de maneira muito rápida.

1:12:41

É, e Alysson, a gente vive quase que um paradoxo hoje, né? Porque a gente nunca na nossa história teve acesso a tanto conhecimento, né? Inclusive com chat, GPTs e etc. A produção de conhecimento no mundo, ela cresce uma velocidade alucinante. Só que é conhecimento é diferente de sabedoria, né? sabedoria é o uso do conhecimento em prol do benefício da própria humanidade, né? e o paradoxo que me parece é de que a gente tá enriquecendo em termos de conhecimento e empobrecendo em termos de sabedoria, né? aonde você vê um ponto de equilíbrio entre isso, né? assim que como é que você quando você tá planejando esse desenvolvimento dessas tecnologias, como é que você pensa esse gap entre, poxa, eu vejo, né, no mundo do próprio autismo, né, via meios digitais, a quantidade de gente que discorda, né, vou dar um exemplo bastante comum na tua história. Quando você usava a palavra cura, algumas pessoas falavam que autismo não deveria ter cura, né? Na verdade, eu sou orgulhoso da minha condição e obviamente não era sobre isso que você tava falando. Você tava falando eliminar uma condição severa de saúde de quem é afetado por essa condição severa.

1:13:55

Obviamente aqueles que são mais leves, mas essa diferença, né, de interpretação acaba gerando muito mais confusão do que como é que você lidar com essas questões, principalmente você que se expõe muito, né, falando sobre o assunto. É, e isso tem a ver, né, com a a própria definição do autismo que vai mudando, né? Então, aquilo que a gente chamava e e definia como autismo, hoje em dia já parece atrasado. Se você olhar uma reportagem de 10 anos atrás, difícil colocar num contexto atual, né? Parece que não faz sentido, né? Ah, mas é isso daí. É, é, é gerar conhecimento, né? E a sabedoria vai ficando para trás, porque você não consegue contextualizar aquilo tudo, né? Acho que a melhor forma de fazer já é o que a gente tá fazendo aqui, a divulgação, né? É contar paraas pessoas, né? como que o conhecimento é gerado, por que ele é gerado, quais são as consequências, positivas, negativas, quanto tempo leva para as coisas acontecerem. Acho que tudo isso faz parte de gerar sabedoria e não só conhecimento, né? Então, é divulgação científica. Eu tento, né? já fiz mais do que eu faço hoje em dia, mas continuo tentando participar, né, de entrevistas, podcasts para explicar essa tecnologia, né, que é meio confusa. Ela ela parece muito futurística, mas na verdade já acontece há mais de 10 anos, né, que a gente já vem fazendo isso.

1:15:17

E e tirando aí, né, desmistificar uma série de coisas, né, e leva-se tempo, né, às vezes, né, a própria, ah, a própria reversão do autismo, né, o conceito de reversão do autismo é algo que os cientistas já observam desde a década de 70. Quer dizer, não tinha nem a definição de autismo, ainda, a gente já sabia que era reversível.É mais ou menos como a tecnologia, né, que já se falava de tecnologia quântica na década de 50. É exatamente a inteligência artificial lá na década de 50 agora tá dando um conhecimento maior, né, do do do que é.Então acho que isso daí fazer esse papel de divulgador mesmo, de tentar explicar em em termos mais simples, a sanar as dúvidas mais importantes e fazer esse diálogo com a sociedade, né? A ciência vai ficando cada vez mais especializada, cada vez mais difícil de ser traduzida pro público lego, né? Isso não é só a biologia, isso é todas as áreas, né?

1:16:15

Então é sempre importante ter os divulgadores, né?E a gente tava falando da Tismoo aqui, qual o estágio atual do desenvolvimento? aliás, conta exatamente para as pessoas, pai, o que que é esse protocolo de saúde e qual que é o produto que a que a Tismoo tá oferecendo pro mercado hoje? a gente tem uma linha de cuidado coordenado, né, que usa esses protocolos que a gente desenvolveu especificamente para autistas e pessoas com outras neurodivergências, que vai fazer aí uma série de de estágios, né, para você conseguir primeiro se aprofundar naquela pessoa para criar um plano ultra personalizado.. para que a gente consiga, que vai ser o nosso plano de voo, pra gente conseguir executar isso ao longo do tempo.

1:17:00

Ou seja, a pessoa que entra nesse plano, ela tem um uma namnese, como é queamnese, issoseja feito uma análise do próprio indivíduo, é construído um plano de tratamento e cuidadopara esse indivíduo, especificamente desenhado para ele.E a partir daí ele passa a ser acompanhado.Isso. Isso. Então assim, um um uma operadora de saúde, uma empresa que quer dar esse benefício pro seu funcionário, paraos seus dependentes, uma clínica de autismo que quer não só tratar o autismo, mas tratar a saúde e o bem-estar, né, do seu público.isso ainda não tá disponível pra pessoa física.Ainda não está disponível pra pessoa física. Então, se você quer contratar, você tem que falar com a sua operadora, com a sua empresa, enfim, que por enquanto a gente tá nesse estágio, né? Então, eles passam pra gente, por exemplo, um lote de 500 autistas, né? a gente vai entrar em contato com essas 500 famílias, fazer uma anamnese aprofundada, criar um plano especificamente, pessoa por pessoa, família por família, inclusive cuidando do cuidador e da saúde do cuidador, que a gente sabe que isso se reflete diretamente na pessoa autista e executando esse plano, fazendo contatos, usando a tecnologia pra gente poder, desenvolver ebooks, áudios, vídeos podcasts, rodas de conversa e uma inteligência artificial especificamente treinada com dados seguros para ser especialista em autismo em outras neurodivergências que a gente trabalha nela, ó, muito antes do chatt ficar famoso, né? É, era 2017, a gente estava ali, né, começando a treinar,debatendo a tecnologia para ver como é

1:18:42

Que a gente ia fazer isso. E e quanto tem um aplicativo também, né? As pessoas podem baixar o aplicativo.Isso tem um aplicativo. Então, se você se você entrar em Tismoo com dois os Tismoo.com.br, br, tem lá as informações. Você pode baixar o aplicativo tanto para iOS quanto para Android, mas também pode acessar a plataforma direto no navegador do seu celular ou do computador. Ela é Omnel, né?e aí você cria uma conta,lá você vai ter acesso a conteúdo com curadoria, né? conteúdo seguro a respeito de autismo. Você pode criar um perfil de saúde para não só abastecer as informações ali que a Ia depois vai te ajudar, mas também para guardar essas informações, você digitalizar aquela pasta de documentos que que toda a família de autista tem para levar no médico e tudo mais.

1:19:32

Olha, eu vou dizer, eu guardo os meus exames ali, né? É você, você é um usuário.Eu faço os exames e anexo todos no meu perfil ali, fica guardado. Quando eu preciso do meu exame, tá lá guardadinho, fácil de acessar,de compartilhar.Exato. E aí tem a inteligência artificial. A inteligência artificial que vai responder perguntas do dia a dia mesmo, coisas seguras. Então essa inteligência artificial tem um guard rail que mantém a inteligência artificial falando de autismo e neurodesenvolvimento, né? tem uma camada antialucinação que é muito importante pros dias de hoje, para você ter uma informação segura a respeito de ainda mais um tema de saúde, né? É mais sensível ainda. E a gente criou ainda os assistentes do gênio, né? Então, a nossa IA chama gênio, né? né? E o gênio que responde e que faz toda essa interação. E a gente criou uns assistentes do gênio para inverter os papéis, principalmente para quem não tá habituado a usar uma inteligência artificial, não sabe fazer um prompt, enfim, o gênio que faz as perguntas para você. Então, a gente tem diversas áreas, diversos assistentes que tem tarefas ali pré-programadas e o gênio passa a fazer a pergunta para você e você só vai responder.

1:20:41

Dá um exemplo dessas tarefas que são interessantes, né? Ó, uma das mais utilizadas, né, é a criação de exercícios com a temática do exercício é o hiperfoco daquela pessoa autista. Então,exercícios escolares,exercícios escolares mesmo para você ensinar alguma matéria da escola, né? Então você faz o seguinte, né? Já tem muitos estudos que mostram que se você usar a temática do hiperfoco de um autista para desenvolver, para adaptar exercícios, ele vai engajar muito mais e o aprendizado vai acontecer de uma maneira muito mais efetiva. Então você vai lá e e fala: "Quero fazer exercícios com a temática do hiperfoco." OK. Aí o gênio começa a te fazer perguntas: "Qual a idade, né, dessa pessoa autista ou neurodivergente? Em que série que tá?Ele tem algum hiperfoco? qual é o hiperfoco dele, né? ele tá no ensino fundamental, tal. OK. Ah, exercício do quê? A de geografia.

1:21:36

Dá um exemplo de perfo que que tipo de perfo a pessoa pode ter?Dinossauros, trens, ônibus,inteligência artificial vai usar esse hiperfox,futebol, game. Vai usar essa temática para produzir um exercício.Exatamente. Exatamente. Então, por exemplo, ah, eu quero ensinar porcentagem, né, dentro da matemática. Então ele vai criar exercícios que vão ser, olha, um tiranossauro RS Rex e botou 13 ovos. Desses ovos, quatro quebraram de quantos por c, enfim, você vai fazer a a ele vai criar o exercício, né, dentro daquele contexto com aquela temática, dar o passo a passo da solução e dar a resposta. hoje a gente tem tantos professores usando, terapeutas usando isso para melhorar a cognição, né, em ambiente terapêutico e muitas famílias para poder treinar, para poder expandir esse aprendizado, né? Agora nas férias a gente acabou de fazer uma roda de conversa para os participantes da dos programas da Tismoo falando do uso de telas durante as férias, que é inevitável, né? mas que a gente possa usar de uma maneira inteligente. E uma das formas também é você usar o assistente gênio para fazer exercício, coisas que interessam ali nessa para essa pessoa autista. Então, esse esses assistentes mudaram o jogo ali no uso da da IAC.

1:23:00

E qual que são os próximos passos? Tismoo desenvolveu até aqui que que você tá projetando aí? Eu tô falando de você porque o Paiva é CEO da Tismoo, né? Ele ele carrega o piano, né? Ele carrega o piano,a gente dá pitaco para chuchu, pai, que fica lá no dia a dia carregando um piano agora com a com o apoio da Ana. Mas quais são os próximos passos do Tismoo?Olha, Tismoo tá numa fase deela tá focado em planos de saúde,focado em plano de saúde e isso em empresas e clínicas. o foco hoje é a gente ter um crescimento nesse mercado, né? Porque até quanto mais a gente executa esse trabalho, mais a gente valida e aprimora esse esses protocolos que a gente criou. a nossa IA tá em pleno desenvolvimento, né? A gente acabou de lançar ontem um um assistente para empregabilidade de autistas, por exemplo, né? Então, a gente tem desenvolvido muito essa IA. A saúde digital no Brasil é algo também que é ainda um embriãozinho, né? e tá crescendo. Então, a gente tá crescendo junto com as formas de atender, deixando isso mais personalizado possível também e com flexibilidade.

1:24:14

Então, a gente tem, por exemplo, pais de autistas, que talvez até sejam autistas e não saibam, que não falam ao telefone..E poxa, eu tenho que pensar em outra maneira, né? Eu tenho que fazer isso por um áudio assíncrono no WhatsApp, eu tenho que fazer isso por texto, eu tenho que fazer isso por por roda de conversa. por outras maneiras de interagir. Então, a gente é muito flexível e a gente tá indo para esse campo, né, de crescer, ter um crescimento, validar cada vez mais e aprimorar esse nossoEntão, hoje a tecnologia tá disponível para planos de saúde, para empresas que querem dar como suporte paraos seus colaboradores,como benefício de saúde,benefício de saúde pros colaboradores, para clínicas de saúde que querem prover esse tipo de suporte pros seus pacientes.

1:25:00

Exato. Exato. E pra pessoa física depende do do da evolução de desses desses três diferentes nichos de mercado, porque aí Tismoo ganha mais força, desenvolve a tecnologia. Aí a ideia no futuro é prover issotambém pra pessoa física.Isso no futuro a gente poder entrar no mercado B2C, né? de poder um consumidor qualquer contratar o nosso o nosso serviço e poder se beneficiar disso, logicamente no dia a dia.E Alysson, o quanto você acha que isso é importante pr as pessoas, né? esse protocolo,cara, é muito,você que vive isso na prática.Então, é muito importante. O que eu acho legal é que Tismoo já acumula casos, né, aonde essa interação com a com a nossa plataforma e os nossos funcionários, né, já tem um avanço e na saúde do autista e das famílias que é inacreditável. Às vezes são coisas muito simples, como o horário do medicamento, né, ou como limpar uma sonda, né? algo que às vezes passa desapercebido numa consulta com o médico, porque em geral é muito rápido, muito corrido, né?

1:25:59

A pessoa não pega os detalhes e a gente consegue ah refinar esse conhecimento e ajustar, né? Então isso reflete como reflete uma melhor qualidade de vida, menos ida ao hospital, menos internação, menos menor número de convulsões, né? Tudo isso a família percebe, ela vê isso como qualidade de vida aumentando, né? E de quebra a seguradora vê isso como um custo reduzido. É uma família dessas que você abaixa o custo, o impacto econômico na seguradora já é gigante, né? Ah, agora imagina isso num SUS, né? Se a gente conseguir implementar essa plataforma, né? dá isso de uma forma acessívelpara todos as famílias brasileiras, os milhões defamílias de famílias brasileiras afetadas pelo autismo. Acho que é um ganho econômico pro país gigantesco, né?

1:26:49

Muito legal. Até isso que o que o Alysson falou dessa, né, o horário do medicamento, só para falar um case muito rápido, aqui a gente tem um grupo de meninos autistascom epilepsia e que estavam tendo de 9 a 12 escapes, né? Ou seja, mesmo tomando a medicação, eles tinham convulsões de 9 a 12 por ano. Isso resultava ou pronto socorro ou internação, né, por conta das convulsões. E a gente percebeu que o rumo que isso estava tomando era vamos fazer uma consulta para um especialista pensando numa hipótese diagnóstica de uma epilepsia refratária, né, que que a medicação não consegue conter. Quem primeiro identificou isso foi o foi a tecnologia, né? Foi, foi isso, exatamente. Levantou um sinal de alerta.Foi o gênio que identificou o padrão, que é uma das coisas que, que que a IA é muito boa, né, de identificar padrões.

1:27:37

identificou que eram o grupo que tava tendo esse maior escape eram pessoas que estavam tomando a medicação em horário variado. Ou seja, o médico falou: "Toma toda manhã e das 6 ao meio-dia de manhã". Eles tomavam em horáriose cada vez horários mais variados. E aí a nossa IA pensou na seguinte hipótese, né? Em vez de ir para outro exame, outro eletroencefalograma, outra consulta com especialista, mudar medicação, só quem tem, né, um filho com epilpsia sabe, a dor de cabeça quer mudar a medicação, né, de um anticonvulsionante. E aí em vez disso tudo, e se a gente acertar o horário como um horário fixo, como se fosse um antibiótico? Porque essas crianças podem ser ultra metabolizadoras dessa droga. Ou seja, quando eu tomo o medicamento, eu vou metabolizar isso, eu vou usar, consumir esse medicamento. Se eu metabolizo isso em 24 horas, eu não tenho mais nada desse medicamento me protegendo ali. Mudo o horário, eu fico um período sem o medicamento.

1:28:38

É, então o que eu tomei ontem, 8 da manhã, agora às 10 não tem mais nada, provavelmente. Então, só de mudar esse horário, a gente passou de 9 a 12 intercorrências por ano para zero a duas por ano, sem precisar outra consulta, outro eletroencefalograma, sem mudar a medicação, sem nada..Quer dizer, às vezes a solução é simples, mas chegar na solução talvez seja complexo. E é isso que esse protocolo Tismoo consegue, essa e essa especialidade em segunda camada para você conseguir lidar com questões de saúde, com o entendimento do autismo, né? lidar com uma com uma anemia muito simples. Talvez qualquer hospital, qualquer clínica saiba lidar, mas anemia de uma pessoa autista que tem seletividade alimentar e só come coisas amarelas.

1:29:33

Aí se você entra nessa segunda camada, né, de que fala um pouco, isso fala um pouco da beleza, né? Porque você encontrar uma solução para um autista é encontrar uma solução para cada indivíduo que é diferente do outro, que tem características específicas, problemas específicos. Então, não é padrão na indústria da saúde você encontrar soluções que sejam individualizadas, né? É,eu acho que a gente conseguiu ali desenvolver esse protocolo individual, que ao mesmo tempo em que eleatende de forma individualizada, ele gera dados para você encontrar grupos correlacionados e com essas informações prover solução de saúde.Exatamente. É uma personalização da saúde.Personalização da saúde.Posso adicionar uma outra coisa que eu acho que extremamente válido e as pessoas acho que precisam saber é que o treinamento das IAs que o Paiva usa, né?

1:30:23

Não é de qualquer fonte, né? São fontes científicas treinadas, validadas e a gente tem todo um processo científico para incluir essas informações. Esse éende que a gente, né, busca também incorporar até ah informações que ainda nem estejam disponibilizadas no conhecimento público, né? Então, todas essas viagens espaciais que a gente tá fazendo com os minicérebros estão revelando dados sobre o envelhecimento do autismo, sobre o metabolismo de diferentes mutações genéticas, que isso tudo é muito válido, né, e que até chegar num conhecimento público vão ser levados aí mais de 10 anos, né, mais de 10 anos aí só para para pro público para chegar, né, porque passa-se por publicações, divulgações, gestão de dados e a gente já consegue usar, né, parte desse esse conhecimento gerado em pesquisas científicas, né, para alimentar esse tipo de inteligência artificial, porque a gente tem essa vantagem, né, van ter acesso ao motab, né, que traz esse conhecimento.

1:31:27

É, e de novo, né, estamos falando de tempo, a gente consegue acelerar o tempo nesse nesse caso para poder trazer você citou um negócio. Quando eu tava preparando essa entrevista hoje, eu fui ver alguns vídeos de vocês no YouTube, vi um vídeo da sua entrevista com Marcos Monon e tem uma parte da entrevista que é uma passagem, acho que do filme que o Antônio Fagundes fala: "Um homem que não luta pela família, não luta por mais nada nessa vida, né?" Essa frase eu até anotei ela aqui porque ela representa bem um pouco de de vocês dois, né? da um pouco da trajetória de vocês dois, acho que e de muitos outros pais que vivem com o autismo. e eu tô falando isso para citar um ponto da trajetória do Paiva, que eu acompanhei recentemente, que é a gente pensa no autismo só pros indivíduos, paraas crianças, né? E a gente acaba que se esquecendo de que esse indivíduo vai crescendo e novos desafios vão acontecendo, como foi o caso do Giovani, que tava entrando na fase de buscar um emprego. e o Paiva, para quem não sabe, né? E eu até me arrepio quando eu lembro disso, porque realmente eu imagino o que deve ser para você e o que deve ter sido, quanto foi importante para ele ter esse suporte. conta um pouco, Pai, o que que você fez, como é que foi esse desafio do Giovani saindo do ambiente escolar e começando a querer trabalhar e você ali e com o desafio de treinar ele para uma primeira entrevista de emprego que acabou viralizando nas redes sociais, né? Conta um pouco como é que foi a tua a tua perspectiva disso.

1:33:02

É, o o Giovani terminou o ensino médio e tinha consciência que ele não poderia ir direto pra faculdade, ele ainda tem que estudar. o ensino médio dele ainda foi, teve muitas lacunas nesse aprendizado, né, que ele tem que suprir, mas ele tava com 18 anos e aí eu comecei a estimulá-lo a buscar um emprego.. Mas eu primeiro fui falando para ele, né? Você tem, você quer ter independência financeira, você quer poder ir passear para um lugar que você quiser, comer algo que você quer, morar no lugar que você quiser, enfim, essas coisas todas só são possíveis quando você tem independência financeira. Aí eu quero, né? Então, então você tem que começar a trabalhar. É o trabalho que vai trazer isso, né? E e aí comecei a a a conversar sobre esse assunto, né? a gente no mínimo uma vez por semana a gente bate um papo a respeito de coisas da vida, né? Às vezes eu tô treinando ele a a ensinando a fazer alguma coisa no computador. Às vezes eu tô, por exemplo, essa semana eu fiquei 58 minutos.

1:34:08

58 não é uma hora50 minutos. 58 minutos respondendo indagações filosóficas da vida,né? para ele, para ele, ele me perguntando por que que as pessoas votam nesses políticos que nós temos, por que que isso não muda, né? enfim, coisas da vida, né? E e aí num desses papos eu falei para ele, né? Ah, temos que arranjar emprego, tal, tal, só que o primeiro passo é fazer uma entrevista de emprego, né? E e surgiu uma possibilidade dele fazer uma entrevista de emprego, uma possibilidade real. E aí eu falei para ele, vamos treinar, então a gente vai conversar e eu vou fingir que eu sou um entrevistador e você vai fazer entrevista de emprego. Sem ter ideia de gravar isso. Essa é a melhor parte. É, mas eu gravei foi foi um foi um acidente, porque eu queria que o Giovani não precisasse anotar nada, que ele ficasse à vontade e que ele pudesse rever as minhas dicas para ele.

1:35:06

Então eu falei, vamos gravar porque daí depois você pode reassistir e aí você anota, você revê quantas vezes for preciso, né, por questões didáticas mesmo. E a gente gravou sem nenhuma preparação, porque a ideia era realmente eu aferir como ele estava para dar as dicas para para que ele melhorasse. E no fim da gravação ficou tão engraçado que eu falei para ele assim, ó, vamos postar nas redes,que também é parte do desenvolvimento dele,que também é parte, né?Exatamente. Ele falou: "Ah, vamos, tá bom". Aí postei em algumas redes sociais, tal, né? e aí até um amigo meu me falou assim: "Ó, você postou no TikTok?" Eu falei assim: "Eu nunca postei nada no TikTok, né?" "Por que você não posta?" Falei: "Porque é um vídeo de 18 minutos." O TikTok é para um vídeo de 18 segundos, não, 18 minutos, né? ninguém vai assistir. Ah, o que que você tem a perder? Nada, né? Então, de repente você chega em jovens,né, que estão precisando dessa orientação. Ah, eu gostei, né? Botou um propósito para mim, já me convenceu, né?

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E aí eu postei no TikTok, tá? Eum vídeo de 18 minutos,de 18 minutos. E tá, sei lá, a última vez que eu vi tava 2.600.000 acessos nesse vídeo com quase 10.000 comentários. E olha, pela primeira vez eu vi algo algo um pouco maior na internet com comentários positivos, assim, não achei um comentário tóxico, né?Legal.É muito raríssimo, raríssimo, né?Nesse ambiente digital. Então,mas o Giovani e foi falando com as características autísticas dele de ingenuidade, de inocênciae de sinceridade exacerbada. Então assim, é muita gente comentando, olha o que eu queria dizer na minha entrevista de emprego ou Giovani me representa.

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Não, aí o Paiva passou a ser cobrado dos próximos ele gravar também e publicar. Não, agora, agora e eu uma das pessoas que cobrou, agora eu quero acompanhar até o fim, né? Quero saber a história inteira, viron novela, né? É. Aí a gente fez alguns, acho que cinco ou seis, né? Então, na outra eu fiz a mesma entrevista depois das orientações, então ele já foi melhor.Aí na terceira eu surpreendi ele com uma entrevista completamente diferente, sem preparação, mas já com aquelas orientações. Enfim, a gente foi lapidando até que ele fez uma entrevista de emprego real e passou, trabalhou dois meses numa farmácia de manipulação.Que legal.enfim. E aí a farmácia mesmo achou que ela não tinhaestrutura,estrutura, porque enfim, uma farmácia pequena, aquela vaga tinha que funcionar, não dava tempo de ficar treinando Giovani muito tempo, tal.

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.E aí faz duas semanas que ele tá trabalhando num escritório de contabilidade.É mesmo.No escritório de contabilidade e e tá se dando muito bem, tá tá ainda se adaptando, tal. Mas ele fez então uma nova entrevista de emprego e passou a tá na segunda experiência dele.Não, eu e eu resgatei isso depois que eu vi essa frase, porque primeiro, como eu disse, né, ela representa muito bem a o que vocês dois fazem, né? Lutam pela família, mais do que lutar pelos outros, né, pela ciência, pelas famílias autistas, né, lutam pela própria família também. E esse desafio, né, do crescimento é um desafio e difícil de enfrentar, né, porque o Ivan tá com quantos anos hoje? Tá19 agora.19 anos. Giovani com 18.

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18,né? Adultos, né? E o estágio do desafio vai aumentando, né? Como é que acho que para as pessoas que convivem com autismo em casa, né? Conta um pouco da experiência de vocês, das angústias, dos pensamentos. É, eu acho que que muda, né, da da infância paraa adolescência. Essa fase é uma transição, tem que ter muito cuidado, né? no nosso caso são meninos, né? Meninas também tem outros cuidados a mais, né?No caso do Ivan tinha muito comportamento autista dele, né? que passava-se desapercebido ou até era visto como engraçadinho enquanto ele era criança. Agora, o mesmo comportamento sendo feito por um adolescente adulto, né, já não é mais tão bem visto, né? Então, por exemplo,tá falando socialmente bem visto.

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Socialmente. Ah, o Ivan, se você se distrai um pouco, né, quando ele era criança, ele ele tinha muito interesse em bolsas de mulheres, né? Porque ele sabe que lá vai terum monte de coisa interessante para ele, né? né? E ele gosta de de cosmético, ah, ele gosta do cheiro, ele sempre sabe que vai ter um chiclete, uma bala, alguma coisa lá. Então, a gente bobeava, ele avançava na bolsa de alguém, né? E assim, você quando é criança fala: "Ah, não, tal, me desculpa, ele é autista, tal, tal". Aí todo mundo, ah, tudo bem, tudo bem. Agora você imagina essa situação no indivíduo adulto, né? Então, chega um cara que vai mexer na bolsa da tua namorada, não sei, já cria uma situação um pouco mais tensa ali, né? Então essa transição é complicada, né? E a gente teve que que se adaptar para isso também. Então existe um enfoque maior, né, num numa num comportamento que pode passar desaper mesmo inadequado, passa-se desapercebido enquanto criança, mas que um adulto passa-se a ser inaceitável, não é? Então você tem que trabalhar com isso daí.

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Essa é um dos exemplos, né, das dificuldades que a gente atravessa. Obviamente aí também entra a parte de hormonal, né, onde o indivíduo cresce, vai ficando mais, você não consegue mais controlá-lo fisicamente, não adianta mais, né, segurar no braço, né, né,ele te arrasta, né, o Ivan hoje é muito forte, né?Então você também você tem que se se preparar, né, para pra perda do controle físico, né, isso já não é um recurso que você vai usar mais, né? E e era uma coisa que a gente já usou com ele quando ele era criança. Às vezes ele entrava numa loja, num, né, em algum evento, queria mexer e quebrar tudo e e você conseguia contê-lo fisicamente. Hoje em dia isso já não acontece. Então você tem que e prever já esse tipo de comportamento, tentar evitar. E é um desafio, né? Porque às vezes é imprevisível, né? Então essa é uma dasdas dificuldades ali da transição pro pro adulto. Legal.

1:41:16

É. E e aí do outro lado do espectro, né, o Giovani e o Ivan nível trê de suporte, Giovani é nível um, cada um com as suas características e desafios, né? o Giovani cada vez mais tá dependendo da habilidade social para viver no mundo.É,né? Quando você é criança, OK, depois você passou a ser adolescente, você começa a depender dessas desses vínculos. E é tão complexo, né? Eu eu treinei uma IA pro Giovani para responder sobre a complexidade das relações humanas. Você teve a ideia depois dos 58 minutos de conversa filosófica,talvez depois das 58 reuniões com ele, não só. então hoje ele pergunta para mim, mas ele, né, também na minha na minha ausência, ele ele tem uma Iá dele, né, que que eu treinei para que ele possa perguntar por o meu amigo me bloqueou no WhatsApp.

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.Aí na mesma filosofia do assistente do gênio, né, porque acabo me inspirando nas coisas que acontecem no dia a dia. aí a pergunta para ele, ele é seu amigo há quanto tempo? com que frequência você mandava mensagem para ele? Era você que mandava a primeira mensagem? Ele tinha iniciativas. Ver se ele acorda.Ele respondia rápido.Ele respondia com uma palavra só, com OK, com ah, tá. e aí vai perguntando para dar contexto, para dar explicar para ele o que aconteceu.Olha, provavelmente esse seu amigo ficou entediado de você falar só sobre o seu imperfoco, que é Apocalipse Zumbi.. né? E ele não quer mais falar de zumbi. ele não gosta disso, talvez. E ele também não tem um repertório para dizer para você: "Olha, você tá chato falando nisso". E às vezes até ele pode achar inadequado ser sincero dessa forma, que é o que o Giovani gostaria.

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.Né? Teve, ele tem um sincero, né? Ele tem um amigo autista que falou para ele assim, ó: "Não me mande mensagens em dias de semana porque eu não respondo.Eu só vou responder em final de semana porque eu estou ocupado em dia de semana". E aí o Giovani me falou assim: "Pai, a minha vontade era ajoelhar nos pés deles e dele e beijá-lo."Por que que todo mundo não é assim, né?Porque eu agradeço muito por ele ser honesto, sincero, para saber qual é a regra dele.Por que que é? Por que que todo mundo não tem uma regra? E não me fala essa regra. Mesmo eu dizendo pros meus amigos, me diga se eu estiver sendo chato, inconveniente, porque às vezes eu não percebo, eles não dizem e me bloqueiam. Na escola era ainda pior, né? Na escola ele me falava assim, ó, eu fui para um amigo meu que que não quer amizade comigo, falar para ele: "O que eu preciso fazer para ser seu amigo?" Ele responde: "Morre e nasce de novo".

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Porque o adolescente é maldoso assim, né? Giovani sofreu bullying na escola antes dele perceber e depois ele passou a perceber e antes dele perceber ele queria ser amigo de quem estava fazendo bullying com ele porque ele não percebia, achava que isso era uma forma de estar incluído na turma,né? Até que chegou uma agressão física,né? Ele ele tomou um murro na dentro da sala de aula. Chegou a esse ponto, né? E e eu até pedi pra escola para me reunir com esses pais que estavam fazendo bullying. A escola não deixou, lógico, não ia saber qual seria a minha reação, que eu queria, mas eles toparam e que eu gravasse um vídeo para explicar, né? E aí no meu vídeo eu falei, eu falei assim: "Olha, eu não quero culpar ninguém, eu só eu tenho certeza que vocês não gostariam que isso estivesse acontecendo com o filho de vocês.".

1:45:00

Né? Então isso tem que ser explicado. Esses dias o Tribunal de Justiça proibiu um um um campeonato de crianças de futebol, proibiu torcida entrar porque os pais estavam fazendo bullying com os adversários. Ou seja, isso vem do exemplo de casa, né? E o bullying é uma questão seríssima nas escolas de modo geral. E autistas prioritariamente autistas, né? majoritariamente autistas sofrem esse mal nas escolas constantemente, considerando que autistas têm um índice de suicídio, né, de morte por suicídio oito vezes maior que a população em geral. O bullying muitas vezes é a causa disso ou o início disso. Então assim, algo muito sério, né? E essas habilidades sociais cada vez são mais necessárias. Agora, o Giovani tá no trabalho, que que ele precisa?

1:45:52

Habilidades sociais, né? Então, uma demanda que que só vem aumentando na vida adulta e que praticamente não existia com 7 anos, 8 anos de idade.É, e vai mudando o nível do jogo, né?É,cada vez que vai evoluindo, vai mudando o nível do jogo.Bom, a gente tá chegando no final, já deu 1 hora e tralalá, né? Quanto tempo deu aí, Eric?1 hora:45, quase 2 horas de podcast. para terminar, né, além de pedir para vocês dar deixarem um recado final antes de eu dar o presente, aliás, vou dar agora, né, Alysson? Isso aqui é o Trocando a Lente, meu meu último livro. Eu pedi, como eu tava te contando, pros meus amigos designers, cada um desenhar uma capa de livro, uma sobrecapa pro livro. Esse foi criado pelo Mário Narita, um um dos maiores designers brasileiros. e por coincidência ele desenhou um cérebro.

1:46:47

Então, foi bom, foi bom.Um presente para você e Paiva para você, feito pelo Gabriel Lopes. Também umauma capa especial, né? Cada cada convidado recebe a sua própria capa. e se não gostarem do livro, por favor, reclamem com o autor.bom, para se despedir, eu queria fazer de um jeito diferente, né? Eu eu queria que Alysson, se você pudesse falar um pouco do Paiva, né? E depois Paiva, se você pudesse falar um pouco e do Alysson para e na sequência já se despedir e mandar um recado final para quem ficou até agora 1 hora:45 nos assistindo.Se alguém sobreviveu, né?É, se alguém sobreviveu a esse tempo.Bom, primeiro, obrigado, Gian, né? Adorei aqui o bate-papo, adorei a capa do livro. Eu vou com certeza lei aqui numa das próximas viagens, né, que eu vou fazer, vou tá lendo ele no avião.

1:47:39

Avião.E o o Paiva para mim, né, o simbolismo do guerreiro, né? eu sempre vejo o Paiva como alguém assim, né, que se você olha ele, ah, parece alguém muito frágil até, né? Mas o Paiva é um dos caras mais fortes que eu conheço, né? Então, para mim, ele é o é o grande guerreiro do autismo. Ele tá à frente da revista autismo, que foi, né, no no na primeira vez que a gente se conheceu, era por uma reportagem, né, pra revista Autismo. E diversas vezes aí durante os anos que a gente se conhece, né, que a revista às vezes não tinha patrocínio, não não ia dar para soltar mais uma. E eu sempre falava: "Pai, vamos cobrar aí, nem que seja R$ 2 só pra gente conseguir fazer a próxima edição? E ele sempre falou: "Não, a revista é gratuita e sempre será, né?" E mostra um pouco, né? Dessa não ganância, mas dessa gana, como é que chama isso?

1:48:33

Gana.Gana, né? De querer realmente executar, né? Então o Paiva para mim é aquele simbolismo de pensar tão grande, mas tão grande, né? Que o sonho se torna realidade. Então ele consegue realizar todos os projetos.E um realizador também.E um realizador. É. E para mim é o é um um grande parceiro aí, né? na causa do autismo, na divulgação, que eu falei que é muito importante, né? E um prazer tê-lo como sócio, né? Então, o Paiva para mim é a idealização ali do pai autista.Muito bom, muito bom. Obrigadovocê.também agradecer Gian pela oportunidade, por est aqui batendo esse papo, poder conversar mais uma vez, né? Sempre uma delícia. Vocês dois são pessoas que me inspiram muito. antes até de eu falar do Alysson, né, Gian é um cara que tem assim um pensamento mais criativo que eu conheço, né, cheio de de soluções, filosoficamente ali, sempre sobe um degrau quando você conversa com ele, quando você debate, é alguma coisa.

1:49:37

Então, uma pessoa que para mim mudou muito ali a minha minha perspectiva, minha visão de mundo e eu sempre saio melhor e maior quando eu converso com você. Obrigado.Obrigado.E Alysson, ontem, anteontem, eu gravei um podcast com o Thiago Abreu, o podcast Spectros da revista Autismo, e o Thiago me falou assim, ó: "Como você definiria o Alysson em uma palavra?" E eu falei: "Altruísmo, né? Porque o Alysson sempre pensa no outro, pensa nesse impacto que a gente pode levar paraas famílias, uma resiliência, né? Ah, lançou agora uma uma terapia genética. Ele tá buscando isso há 20 anos..

1:50:22

Né? Uma resiliência muito grande e que quer democratizar, né, os os benefícios da ciência para todos, né? como ele mesmo diz: "Ah, eu tenho um medicamento de 1 milhão de dólares,não tenho nenhum interesse,não quero, não tenho menor interesse nisso, né? Quantas vezes a gente falou sobre algumas questões de de descobrir um medicamento e que essa patente pudesse ser aberta, né? Então eu acho que altruísmo é a palavra que define, eu me inspiro, um gênio, né? Um gênio da da ciência e me inspiro muito.A gente tem o privilégio de est próximo, né?É, a gente tem o privilégio. Eu sempre que eu posso, né? mando mensagem para ele e e fico assim ansioso esperando a volta, porque eu sempre aprendo muito. Então, e para mim assim, é realmente me sinto muito privilegiado de ter vocês dois aí na Tismoo, mas o o Muotri é um cara que desde 2010, quando eu vi ele no Jornal Nacional, nunca mais eu parei de me surpreender com ele, né, e de me inspirar no trabalho dele. Muito obrigado.

1:51:24

Obrigado, pai.Muito legal. Bom, então, queria agradecer mais uma vez, né, além da companhia de vocês durante todos esses anos, por ter passado esse tempo aqui dividindo com a nossa audiência um pouco dessas experiências. Queria pedir para você, né, fazer o pedido que o Gabriel provavelmente vai me matar, que eu não falei no começo, que é curtir, compartilhar, comentar, se inscrever, aciona o sininho, dá muita informação junta para lembrar, eu deixo uma anotada aqui porque senão eu esqueço, né? e obrigado por ter ficado conosco até agora. Um beijo no coração e até a próxima.